OFF-STAGE #27: 0 Plano 2.0 e a Arte de Construir Memória (Sem Pedir Licença)
Meus caros, o plano é simples: vamos mudar tudo para sermos vistos pela nova geração e, com um bocadinho de sorte, sermos invejados pela minha.
Já ando a matutar nesta mudança há mais de oito meses. A ideia é dar uma cara nova à BANTUMEN, separar o trigo do joio e desenhar os nossos próximos dez anos. Se tudo correr bem, aos 50 anos estarei a celebrar os 20 da BANTUMEN. Ou seja, estarei a 30 anos de a BANTUMEN celebrar 50 e, aí, terei menos a 8 anos que a idade com que o senhor Francisco Pinto Balsemão nos deixou.
Sim, leram bem. Quero seguir os passos do senhor Balsemão e os do Bonga: estar ativo no trabalho ao ponto de gravar podcasts e, quem sabe, ser fértil o suficiente para ter filhos pequenos aos 80. Gémeos, de preferência. Porque se é para complicar a logística, que seja em dose dupla.
O plano chama-se Plano ESTRATÉGICO BANTUMEN 2.0. O objetivo? Transformarmo-nos no maior arquivo vivo da cultura afro-lusófona contemporânea. Não queremos apenas cobrir cultura; queremos construir memória cultural. Para isso, operamos com dois motores: a Lógica do Presente (crescimento orgânico, comunidade e narrativas do agora) e a Lógica do Futuro (profundidade, rigor, ensaio e arquivo). A regra de ouro é: “Tudo o que nasce para circular pode e deve ser editado para permanecer.”
Mas para explicar onde vamos, preciso de vos levar a uma tarde de julho de 1992. Amadora, zona da Venteira. Estava eu à porta do Chimarrão, à espera da minha mãe que estava lá dentro a tratar do takeaway enquanto bebia uma cerveja (ela, não eu). Do outro lado da rua, passa uma miúda magra, alta, de pescoço longo. Era bonita, mas tinha uma testa... digamos, generosa. Uma testa que brilhava ao sol. Fiquei de olhos arregalados, sem coragem para a chamar, mas reparei que ela tinha um penso na mão, como se se tivesse magoado a sério. Com o meu sotaque carregado de angolano de gema, lá ganhei coragem: “Xé, miúda, como te chamas?”. Fui ignorado com uma classe olímpica. Ela seguia num vestido branco com flores azuis e uma canela seca (os europeus nunca gostaram muito de hidratante).
A minha mãe saiu do Chimarrão, pegou em mim e seguimos viagem. Nunca mais vi a miúda, mas nunca esqueci aquela testa. Na minha cabeça de criança, julguei que ela só podia ser muito inteligente; precisava de espaço no crânio para tanto pensamento.
Anos mais tarde, em 2003, no dia em que me mudei definitivamente para Portugal, estava num táxi com o senhor Chico a caminho do Cacém. Juro que a vi outra vez. Era impossível haver duas pessoas no mundo com uma testa daquele calibre. Mas o táxi seguiu, a visão passou e a vida continuou.
É precisamente desse desencontro — entre olhares que não se encontram e realidades que passam ao lado umas das outras — que nasceu a BANTUMEN. Desta vivência entre mundos, desta consciência de que existem outras culturas, línguas e dialetos que a Europa insiste em ignorar. Durante muito tempo, não tivemos sede (agora temos e estamos a renová-la), não tínhamos Wi-Fi (roubávamos o sinal da vizinha, a dona Argentina), não tínhamos câmaras da Sony (filmávamos com um iPhone 7 e gravávamos o som com um iPhone 4S). O que tínhamos era uma vontade quase ofensiva de existir.
Nasceu em 2015, quando ainda se dizia “revista online” com um certo pudor, como quem pede desculpa por não estar em papel. Ninguém estava à espera dela. Nem o mercado, nem os *media* tradicionais, nem o algoritmo. Apareceu porque tinha de aparecer. Porque havia histórias a apodrecer fora do enquadramento.
Depois veio o fogo. Literalmente. Uma casa a arder, arquivos perdidos, discos rígidos transformados em cinza. O que era para ser o fim tornou-se o nosso quilombo digital. Percebemos que não éramos apenas um site; éramos uma infraestrutura emocional. Crescemos à unha. Aprendemos a negociar sem nos vendermos, a sentarmo-nos em mesas onde o ar era mais branco que o orçamento. Ouvimos a pergunta clássica: “Mas isto é ativismo ou jornalismo?”. A resposta é curta: é sobrevivência com linha editorial.
Criámos a PowerList 100 para mapear influência onde ninguém olhava. Entrámos na Wikipédia para fazer justiça epistémica em modo guerrilha. Fomos ao Web Summit para empurrar startups negras para o palco do dinheiro. Fizemos o que o Estado não soube fazer.
E agora, o fecho do círculo. Recentemente, vi uns stories da tia da Vanessa com fotografias antigas da família. Numa delas, lá estava ela: a miúda da testa grande, em frente ao Chimarrão da Venteira, em 1992. Fiz o print básico e fui questionar a minha sócia. Para minha surpresa (ou talvez não), era ela. A Vanessa Sanches. A miúda que me ignorou em 92 era a mesma que se tinha magoado com um prego na palma da mão — cicatriz que ela tem até hoje. E em 2003, quando a vi do táxi, ela vivia precisamente na zona de Agualva e Mira-Sintra.
O destino tem um sentido de humor peculiar. A miúda com uma testa de inteligente e o miúdo do sotaque carregado acabaram por construir o arquivo vivo de uma geração. E o melhor? Os nossos filhos agora são os nossos “estagiários” e têm o orgulho (e a vaidade) de terem pais que fazem “concorrência” aos seus youtubers favoritos.
Estamos a desenhar o futuro, mas o passado estava lá sempre, a olhar para nós do outro lado da rua.
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