OFF-STAGE #28: O dia em que deixámos de ser invisíveis
A democracia vê-nos melhor quando aparecemos juntos
Meus caros, hoje o tom é de reflexão, mas daquela que queima. Vamos falar de eleições, do crescimento da extrema-direita que parece cogumelos em dia de chuva e da perseguição aos imigrantes que, pelos vistos, virou o desporto nacional preferido de muita gente.
E se a comunidade negra se juntasse para pensar no “voto negro”? Imaginem um movimento em que todas as pessoas negras e não brancas fossem às urnas à mesma hora. Um corpo político visível, coordenado, a mostrar quantos somos, como contribuímos para este país e que, sim, podemos ditar caminhos eleitorais. Não se trata de reagir; trata-se de ocupar o espaço para alterar estruturas que nos tentam apagar.
Em 2017 entrevistei Fábio Mousinho Pinto na BANTUMEN. Um jovem político de 30 anos que foi candidato à freguesia de Vialonga.
Na altura, ele explicou-me que a política não é um palco distante, mas um instrumento para transformar realidades concretas. Disse também que, tendo crescido em Vialonga, conhecia de perto o que a sua comunidade precisava e que a política era o caminho mais prático e direto para responder a problemas que normalmente não têm resposta, como a falta de espaços públicos, de serviços ou de oportunidades associativas e culturais no bairro.
Não se trata apenas de reagir. Trata-se de ocupar o espaço político para alterar estruturas que tendem a excluir. Fábio lembrava que muitos veem a política apenas como liturgia partidária, quando ela pode e deve ser vista como um meio de dar voz e de intervir nas condições de vida da comunidade.
Entrevistei este jovem com ambições políticas bem antes de vermos Joacine Katar Moreira como a primeira mulher negra a encabeçar uma candidatura para o parlamento em Portugal ou antes de ali vermos Beatriz Gomes Dias ou Romualda Fernandes.
Entrevistei Fábio há oito anos para mostrar que existimos e que, com a nossa plataforma, podíamos mostrar ao mundo um candidato negro numa freguesia como Vialonga, onde, para mim, a maioria da população era jovem e negra. Ele tinha tudo para vencer, mas não venceu. Dizem as más línguas que, no dia das eleições, que foi num domingo, as pessoas não foram votar porque saíram no sábado e a ressaca não lhes permitiu levantar da cama.
Mamadou Ba passou pelo Bloco de Esquerda, mas mesmo depois de sair do sistema partidário formal nunca deixou de intervir politicamente. Pelo contrário, continuou a denunciar o racismo estrutural em Portugal e, por isso, tem sido alvo de uma perseguição constante no espaço público, traduzida em campanhas de difamação e em vários processos judiciais relacionados com a sua intervenção política. O seu caso ilustra como, em Portugal, a participação antirracista não termina com a saída de um partido. Muitas vezes transforma-se noutra forma de penalização
Hoje, Eva Cruzeiro representa uma nova etapa. Uma mulher jovem, firme, musculada de argumentos, cuja preparação não nasce do acaso, mas de um caminho aberto por quem enfrentou o sistema antes dela, muitas vezes sem proteção e com elevado custo pessoal.
Mas e o povo negro emigrante que pode votar? Qual é a força desse voto? O que seria este voto negro?
Seria mostrar à comunicação social, à extrema-direita e ao resto da população que os não brancos também têm poder. Mesmo que invisível, a Constituição dá-lhes esse direito.
Esta ideia não saiu da minha cabeça. Veio da cabeça de um negro português com mais de 50 anos, que achou que não seria de bom tom ir atrás desta campanha e desta ideia e passou-a para mim. Ou melhor, passou-a para a BANTUMEN. Liguei à minha sócia com a intenção de implementar a ideia, mas também de demonstrar como esta reflexão não é válida apenas para Portugal, mas para todos os países com populações negras significativas, sempre vistas como secundárias.
Expliquei a ideia e comecei a provocar. Vamos atrás disto. É uma grande ideia.
Do lado dela veio a resposta: faltam quatro dias, não faz sentido. Eu disse-lhe que, se fosse para reclamar ou reagir aos vídeos da extrema-direita, nunca seria tarde. Então porque não fazer isto? Mas, segundo ela, teria de ser alguém grande por trás, uma grande organização de direitos civis. Na minha cabeça só me vinham pessoas brancas. E eu estou farto de serem sempre eles a organizar-nos.
Até para mostrar que temos poder, tem de ser uma pessoa branca a mobilizar-nos?
A conversa escala. Eu perco o argumento, perco a força. Ela começa a falar de bussalidade, gaslighting, mansplaining, manterrupting, bropriating e manspreading. E aí eu perco-me. Primeiro, nem sei falar inglês. Segundo, isto ativa a minha dislexia, que por sua vez ativa o meu transtorno do espetro do autismo, nível 1.
Desliguei o iPhone e fiquei a questionar-me: nigga, fazes parte das milhares de pessoas que a Agência para a Integração, Migrações e Asilo ainda não conseguiu entregar cartões de residência e estás a reclamar porque a tua sócia não validou uma ideia que nem sequer é tua.
Brada foca-te na tua realidade. Tens de andar com um papel de comprovativo de renovação de residência mesmo nos dia chuva porque senão vais para a esquadra e lá corres o risco de usaram um cacetete como plug anal - se fores parar à esquadra do Rato, em Lisboa.
E depois veio aquela reflexão sobre como a nossa inutilidade nesta sociedade parece crescer. Ainda assim, e se não fôssemos pacíficos? E se não esperássemos sempre soluções dos nossos senhores?
A ideia de um voto negro coordenado não é apenas eleitoral. É profundamente simbólica.
Não se trata, à partida, de dizer “vamos todos votar no mesmo partido”, mas de afirmar três coisas muito claras. Estamos aqui. Somos muitos. Temos agência política.
O simples ato de milhares de pessoas negras e não brancas irem votar à mesma hora, conscientemente identificadas como um corpo político, quebraria uma narrativa central da extrema-direita: a de que estas comunidades são passivas, invisíveis ou politicamente irrelevantes. O voto deixa de ser apenas individual e passa a ser um gesto coletivo de presença.
Há aqui uma inversão poderosa. Quem costuma ser contado apenas em estatísticas de exclusão passa a ser contado como força democrática.
Do ponto de vista histórico, isto não é uma fantasia inédita.
Nos Estados Unidos, o conceito de Black Vote existe desde os anos 1960. O Movimento dos Direitos Civis percebeu cedo que o voto negro, quando organizado, podia decidir eleições locais, estaduais e nacionais. Cidades inteiras mudaram políticas porque os políticos entenderam uma coisa simples: ignorar aquela comunidade tinha custo eleitoral.
Na África do Sul pós-apartheid, o voto negro massivo foi mais do que uma escolha partidária. Foi um ritual de reconstrução de humanidade política. Votar era dizer: não voltamos para o silêncio.
No Reino Unido, mais recentemente, comunidades racializadas organizaram campanhas de mobilização eleitoral em bairros específicos, não como bloco ideológico único, mas como bloco de exigência. Saúde, habitação, imigração justa, educação.
O ponto crucial é este. O poder não nasce da unanimidade. Nasce da coordenação.
Em Portugal, há um mito confortável de “somos poucos” ou “não fazemos diferença”. Esse mito serve perfeitamente quem prefere que a comunidade negra continue fragmentada, ocupada a sobreviver e não a influenciar. Um momento visível de voto coordenado destruiria esse mito em direto.
E há outro efeito, talvez ainda mais importante. Pedagógico. Para dentro da própria comunidade. Mostra às gerações mais novas que política não é só um espetáculo televisivo onde nunca se vê ninguém parecido connosco. É um território disputável.
Claro que isto incomodaria. A extrema-direita reagiria com sarcasmo, medo encenado ou acusações de “divisão racial”. Isso é previsível. Sempre que grupos marginalizados se organizam, o sistema chama-lhe radicalismo. Mas a democracia só funciona quando todos os corpos contam, não apenas os que sempre mandaram.
A questão central não é se este gesto resolveria tudo. Não resolveria. Mas mudaria o tabuleiro. Forçaria partidos, media e instituições a reconhecer que há um eleitorado atento, organizado e impossível de ignorar.
No fundo, esta reflexão não é sobre um dia de voto. É sobre uma transição. De comunidade vista como problema social para comunidade reconhecida como sujeito político.
E quando isso acontece, a extrema-direita perde uma das suas armas favoritas: a invisibilidade forçada dos outros.
Podia ficar a escrever sobre a passividade de homens e mulheres negras em Portugal, que continuam a viver o sonho porque, em casa, a televisão em canal aberto já tem mais de um negro a dar a cara nas notícias, porque o programa “Bem-Vindos” passou a ser gravado nos estúdios da RTP, porque os rappers negros estão em todas as festividades da Câmara de Lisboa...
Estamos a crescer, dizem. Estão a dar-nos espaço. Entre nós há assimilados que podem fazer parte. E os outros? Os enxovalhados. Os que só são lembrados quando faltam braços na construção civil ou quando não há ninguém para fazer entregas da Uber Eats em dias de chuva.
Dizem-nos: “Não estás bem? Volta para a tua terra.” E as minhas filhas? E vocês que nasceram aqui? E os vossos pais? Voltam para onde?
Escrevi isto a 4 de fevereiro, depois da conversa com a Vanessa. Não sei quem ganhou as eleições, mas espero que quem quer que seja, esteja seguro do que quer fazer com o povo negro em Portugal. Porque nós precisamos de direção. E de parar de dormir a ressaca no dia de decidir o futuro.
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Somente o Eddie me faz viajar, as 09:17 min como uma reflexão leve e pesada ao mesmo tempo rs, fui até ao final porque queria estar seguro do que estavas a dizer. Só queria comer meu mata-bicho em paz, mas me fizeste refletir antes do treino e assim vou treinar com bwe de raiva no sentido positivo, obrigado pela sua reflexão como sempre.