OFF-STAGE #29: A Armadilha de Saber um Pouco de Tudo
Quando migrar emails expõe tudo o que nunca aprofundaste
Meus caros, há quinze dias que o meu ritual de acordar e adormecer tem um único protagonista: e-mails. E não, não estou a falar de ler mensagens inspiradoras ou responder a fãs. Estou a falar de MX records, servidores, domínios comprados num sítio e alojados noutro, e caixas de correio que insistem em cair no abismo onde já não deviam estar.
A inveja e o arrependimento decidiram fazer check-in na minha cabeça e não parecem querer sair tão cedo. “Porque é que não aprendeste isto a sério?”, pergunta-me o meu subconsciente às três da manhã. “Agora andas a chatear quem realmente sabe.”
Deixem-me contextualizar esta tragédia tecnológica. No início da BANTUMEN, éramos só dois: eu e a Vanessa. Um Google Workspace básico, sete ou oito euros por mês, uma Drive incluída e muita, muita ingenuidade. Era simples. Mas a equipa cresceu. Para poupar uns trocos, migrámos para o mail da Hostinger com caixas gratuitas e começámos a usar o Spark para organizar o caos. Durante oito anos, funcionou. Ou, pelo menos, parecia que funcionava.
Entretanto, a máquina ficou maior. Hoje somos oito, dez pessoas espalhadas entre Portugal, Angola, Cabo Verde e Moçambique. Mails para a redação, publicidade, reclamações, anúncios… o motor precisava de mais cavalos. Conseguimos acesso ao Google Workspace para organizações sem fins lucrativos. Mais de 100 teras na Drive. Caixas de mail suficientes para respirar. Parecia a solução óbvia: voltar aos braços da Google.
Só que nada é óbvio quando és tu que fizeste a “festa tecnológica” toda sozinho. Domínio comprado num sítio, mail apontado para outro, servidores do site já noutra empresa na Alemanha, através da Loba, que agora gere a nossa infraestrutura. Registos DNS a apontar para onde já não deviam… e eu, durante quinze dias, armado em herói, a tentar resolver tudo sozinho.
Criava as contas no Workspace, migrava o histórico, tudo parecia certinho. Mas os mails continuavam a cair no servidor antigo. Como se o passado se recusasse a largar-me, como um ex-namorado tóxico que ainda tem a chave de casa. Entre prints, conversas existenciais com o ChatGPT e pesquisas desesperadas na madrugada, percebi finalmente a pedra no sapato: o domínio já não estava onde eu achava. O servidor já não era “nosso”. Era da empresa que contratámos para profissionalizar o site. Ou seja, eu estava a lutar contra uma configuração que já nem dependia de mim.
Frustração é pouco. Porque dentro da BANTUMEN, eu sempre fui o gajo que resolve. O jornalista formado na Lusófona que nunca terminou o mestrado porque a vida o chamou para trabalhar. O nerd que cresceu sozinho com um computador, blogs no Blogspot e o primeiro domínio comprado há quase vinte anos. Eu sempre soube “o suficiente”.
Photoshop? Sei. Figma? Sei. WordPress? Não desenvolvo, mas desenho layouts e dou ordens a programadores. Final Cut? Domino. DaVinci Resolve? Tentei, mas voltei para o Final Cut com o rabo entre as pernas. Canva? A Vanessa goza comigo porque não sei mexer naquilo.
O meu conhecimento sempre foi assim: de 0 a 10, fico ali no 5 ou 6. O suficiente para coordenar, para dar briefings, para perceber quando algo está mal feito. Aprendi a ver referências, a estruturar ideias, a falar com designers sénior e com miúdos que só precisam de um áudio no WhatsApp. Mas nunca aprofundei verdadeiramente nada. Comecei um curso de fotografia? Não terminei. Um de iluminação? Ficou pelo caminho. Comprei mini cursos online para resolver problemas específicos? Resolvi e segui em frente.
Sempre autodidata. Sempre a aprender para tapar um buraco concreto. E quando aparece um problema estrutural, como esta migração de mails, levo com a pergunta na cara: “Porque é que nunca foste até ao fim? Porque é que não tiras tempo para aprender a sério?”
A ideia de voltar à faculdade até me passou pela cabeça. Depois ri-me. Não quero voltar a pôr os pés numa sala de aula tão cedo. Talvez nunca. A vida ensinou-me muito mais fora dali. Mas há uma diferença entre aprender por necessidade e dominar por escolha. Eu sempre fui o gajo que desenhava a frontpage inspirado na Complex ou na Hypebeast, que mexia no backoffice, que editava vídeo e afinava a luz. Só que agora a estrutura mudou. Temos um Nuno a tempo inteiro, designers fortes, parceiros como a Loba... O meu papel começa a ser mais de direção do que de execução e talvez seja isso o que mais me desestabiliza. Quando o problema técnico aparece, já não é suposto ser eu a resolver tudo mas o meu ego ainda acha que sim.
Felizmente, esta história ainda não acabou. O problema dos mails não está totalmente resolvido, mas pelo menos já sei onde está o nó. E isso, estranhamente, devolveu-me alguma paz. Partilho isto porque sei que não sou o único. Quantos de vocês começaram cursos que nunca terminaram? Quantos andam a aprender no YouTube para sobreviver a um desafio imediato? Quantos sentem que sabem “um pouco de tudo”, mas não o suficiente de nada?
Respondam-me. A sério. Esta newsletter é lida por mais de duas mil pessoas. Se chegaste até aqui, deixa-me uma linha. Uma frustração tua. Não me deixem sozinho nesta crise existencial de meia-idade tecnológica.
Antes de fechar, duas notas rápidas:
No dia 1 de março, em Lisboa, no Cais do Sodré, o meu irmão Wilds Gomes apresenta o seu primeiro livro. O primeiro dia em que ele “pisou” no Programa Bem-vindos da RTP África foi para declamar poesias que escrevia no Facebook. Hoje, é escritor com selo da BANTUMEN. Sim, fomos nós que financiámos a obra. Porque às vezes é preciso meter o dinheiro onde metemos o discurso.
E sim, já temos as chaves do nosso espaço na Bela Vista, a três minutos do metro. Ainda não tenho a chave física na mão, faltam alarmes e burocracias, mas o espaço é nosso. Há um arquiteto que ofereceu o talento, mas falta pagar a obra. Falta sempre pagar a obra.
Se valorizas estas histórias, considera subscrever a versão paga da newsletter. Ainda não tenho perks sofisticados, mas prometo uma coisa: cada euro vai ser transformado em algo concreto. Uma lente, um microfone, um pedaço físico desta construção.
Estamos a construir. Com erros, com frustrações e com mails perdidos pelo caminho.
Abraços,





