OFF-STAGE #30 Crónicas de um Narcisista com Dor de Cotovelo
Um diagnóstico psiquiátrico, uma exposição no Porto e um pequeno julgamento público no Instagram
Nunca escondi que não gosto de meio mundo. Na verdade, suspeito seriamente de quase toda a gente, sou crítico de todos, de mim incluído e, segundo o meu psiquiatra, isto tem um nome bastante elegante para algo tão pouco elegante: Transtorno de Personalidade Narcisista. Para quem não está familiarizado com a sigla, o TPN é um daqueles rótulos clínicos que descrevem pessoas com uma autoimagem inflada, uma necessidade quase infantil de admiração e uma empatia que às vezes aparece com a mesma frequência de um eclipse solar.
Dito de forma mais simples, o manual de psiquiatria explica que estes indivíduos sentem-se especiais, superiores, e não têm grande pudor em usar os outros como degraus quando lhes convém. Também lidam mal com críticas, o que é curioso porque vivem rodeados delas. É um diagnóstico simpático.
Não há cura milagrosa mas há terapia. Psicoterapia, para ser exato com psicodinâmica, mentalização ou transferência. São sessões onde se tenta ensinar alguém a compreender sentimentos alheios como quem aprende uma língua estrangeira depois dos 40. Demora, custa e nem sempre resulta. Mas pronto, dizem que ajuda.
Agora que já fiz a parte da exposição pública das minhas fragilidades, aquela espécie de striptease emocional que a internet adora consumir com pipocas, posso então avançar para a verdadeira razão desta crónica. Um pequeno episódio de redes sociais. Ou, como gosto de lhe chamar, a minha emoção digital da semana.
Estava eu no Porto - não de férias, infelizmente -, a tratar da montagem da nossa primeira exposição dentro da sede da Natixis. Chama-se “Ecos da Memória”. Esteve em Lisboa em novembro do ano passado e agora instalou-se no Porto como quem muda de casa mas leva as histórias todas na mala.
As obras desenham um mapa polifónico de experiências, vozes e pertenças. A memória aparece ali como um corpo que nunca fica quieto. Reinventa-se, troca de roupa, muda de pele e, através de três linguagens diferentes, os artistas convidam-nos a pensar no que permanece, no que se transforma e no que se reinventa nas narrativas contemporâneas da africanidade.
Gigi Origo, que divide a vida entre Portugal, Cabo Verde e França, trabalha a sobreposição como quem escreve poesia visual, mistura matéria, memória e transparência em composições digitais que parecem quase tocar a textura do mundo real. Os rostos nas suas obras aparecem fragmentados, como arquiteturas de lembrança e perguntam silenciosamente o que é que numa imagem resiste ao tempo e o que acaba inevitavelmente devorado por ele.
Ricardo Parker, entre Cabo Verde e Portugal, usa a cidade como laboratório visual. Tipografia, personagens, ritmo urbano. Tudo se mistura num retrato marcado por grafismos e ruídos de memória coletiva. O resultado é quase o retrato psicológico de uma geração que vive entre mundos, códigos e pertenças. Uma geração que já não cabe em etiquetas simples.
Sai Rodrigues, com raízes em Cabo Verde e vida na Holanda, transforma o desenho numa forma de afeto. A inspiração vem do ofício do pai e transforma-se em mundos imaginados onde cada figura carrega uma pequena narrativa de resistência e ternura. Há ali uma homenagem clara à continuidade, à ideia de que criar também é uma forma de cuidar da memória.
Ao longo das suas quatro edições, o MIA foi-se afirmando como uma plataforma de diálogo artístico entre África e a diáspora. Exposições, performances, debates e outras manifestações culturais. Tudo isto para celebrar a diversidade e a riqueza das identidades africanas, que felizmente são demasiado complexas para caber nos rótulos simplificados que a internet adora.
A parceria com a Natixis em Portugal tem também uma intenção simples. Levar a arte para os lugares onde passamos grande parte da nossa vida. Escritórios, corredores, salas de reunião. Romper aquela ideia antiquada de que cultura e trabalho vivem em universos separados. As próprias instalações da Natixis tornaram-se num espaço onde diferentes narrativas são bem-vindas, o que combina perfeitamente com o espírito da exposição.
Para quem passar pelo Porto, exposição está aberta ao público nos dias 18 e 19 de março, entre as 18h e as 20h, mediante inscrição aqui.
Pronto. Contexto dado.
Agora, podemos finalmente chegar à minha pequena dor semanal.
Num grupo de WhatsApp da BANTUMEN, onde convivem pessoas da redação e alguns colaboradores freelancers, apareceu um print de um story do Instagram. A autora não é uma estranha completa. Já tinha mostrado algum entusiasmo negativo em relação ao meu trabalho numa ocasião anterior, quando escrevi sobre a minha DJ favorita.
No tal print, destacava-se uma entrevista recente à Ana Martins, que organizou uma roda de conversa chamada “Mella Table”. Até aqui tudo normal. A internet vive de partilhas.
Depois vieram os comentários.
“Isto vindo da plataforma que só se lembra que existe comunidade negra na internet se forem amigos deles. Hmmmm. Tem piada.”
Outro acrescentava qualquer coisa como “ficam a dizer que não encontram pessoa X ou Y, mas é porque não lhes convém mostrar essas pessoas e provavelmente não estão nas boas graças do dono”.
E ainda uma terceira pérola: “falei, estou leve. Isto não é para virem discutir comigo. Quando a Bantumen veio falar mal de uma mulher negra porque o dono tem dor de cotovelo, não vi ninguém falar”.
Por baixo, alguém entusiasmado escreveu: “mais alto por favor”.
A pergunta óbvia é simples. Porque estou eu a trazer isto aqui?
Porque a história que eu estava a preparar para esta semana era demasiado aborrecida. Bastidores elegantes, hotéis confortáveis, sedes bancárias com ar condicionado perfeito e cafés premiados servidos com uma seriedade quase religiosa. Nada disso rende grande literatura.
Aliás, vou confessar uma coisa. Uma das piores experiências que alguém pode ter é viver temporariamente um nível de conforto para o qual a sua conta bancária ainda não está preparada. Viajar em primeira classe arruína permanentemente os voos low cost. Dormir em hotéis com lençóis absurdamente macios transforma as toalhas lá de casa em papel de jornal. Provar certos cafés faz com que o resto pareça água suspeita.
É um perigo existencial.
Mas voltemos ao assunto.
O primeiro parágrafo desta crónica servia basicamente para explicar que, dentro da minha bela condição psiquiátrica, talvez fosse mais sensato eu não falar sobre isto. Pessoas com ego frágil e reatividade emocional elevada deviam, em teoria, evitar conflitos públicos.
Mas vou fazer uma pequena correção. Não quero reclamar sobre ti. Quero reclamar sobre mim.
Querida criadora de conteúdo, antes de mais nada, obrigado por acompanhares o trabalho que tenho vindo a fazer com os meus colegas ao longo destes onze anos de BANTUMEN.
Vou ser honesto. Não fazia ideia de quem eras. Nas últimas 72 horas fiz o que qualquer pessoa obsessiva faria. Pesquisei. Li. Ouvi. Descobri o teu podcast de quinta-feira, o blog de viagens, as tuas sugestões de livros e o carinho que demonstras por pessoas seniores. Tudo isso é genuinamente bonito.
Agora vamos à frase que mais me chamou a atenção.
“A Bantumen falou mal de uma mulher negra porque o dono tem dor de cotovelo.”
Espero sinceramente que depois de escreveres isso tenhas ficado mais leve. Eu próprio admito que sofro de alguma dor de cotovelo existencial. Confunde-me, por exemplo, quando pessoas negras com um discurso racial muito inflamado constroem a sua vida social quase exclusivamente em círculos onde praticamente não existem outras pessoas negras.
Talvez seja apenas a minha falta de subtileza social. Tenho também uma bela dose de fobia social, o que às vezes me dá a estranha sensação de que não percebo bem os códigos que toda a gente parece dominar.
Sobre a mulher negra que ofendi no passado - acto do qual continuo arrependido - imagino que esse episódio tenha sido o gatilho para eu aparecer no teu radar. Faz sentido.
Mas há uma coisa que convém esclarecer. Mesmo não gostando de metade da humanidade, nunca usei a BANTUMEN para chatear ninguém. Até porque tenho este espaço onde partilho - com quem quer ler - o que me apetece sobre os bastidores da BANTUMEN e da minha vida de merda (como pai, namorado e ativo social).
Agora vamos à outra frase.
“A plataforma só se lembra da comunidade negra se forem amigos deles.”
Querida, não sei onde estavas há quinze anos quando comecei a imaginar um site que nem sequer era sobre comunidade negra. Era sobre vaidade masculina negra. Uma ideia meio vaidosa, admito.
O movimento Black Lives Matter nasceu em 2013. A BANTUMEN nasceu em 2015. Mas a ideia esteve quatro anos a fermentar no papel. Quatro anos a procurar pessoas com visões diferentes para criar algo que fosse a cara de muita gente, porque a minha cara já tinha o meu blogue - que hoje faria 20 anos e cujo domínio uso agora nesta newsletter.
Também percebo a suspeita de que amizades definem pautas editoriais. É uma teoria popular na internet. Mas a realidade é menos romântica. As pautas aqui nascem de comunicados de imprensa, das sugestões dos teus amigos que colaboram com a BANTUMEN, dos convites, acontecimentos culturais e, às vezes, simples curiosidade.
Eu realmente sofro de dor de cotovelo e é justamente por isso que evito seguir muita gente. Mas os poucos que sigo seguem o teu trabalho e, alguns deles, até são jornalistas e têm cargos de liderança na BANTUMEN, um até é Chief Brand Officer. Isto tudo para dizer que a BANTUMEN não tem dono, tem fundadores e é editada por uma cooperativa cultural. O que significa que qualquer pessoa - com algum dinheiro - pode juntar-se à malta e trazer a sua visão de comunidade, para juntos crescermos. Ou seja, todos podemos ser donos.
No caso do evento que partilhaste, fomos convidados a título pessoal. Gostei tanto que, como jornalista que também sou, achei que fazia sentido escrever sobre uma roda de conversa que junta várias pessoas à mesma mesa para discutir algo que nos atravessa a todos.
Agora a terceira frase.
“A Bantumen só mostra quem está nas boas graças do dono.”
Aqui tenho de fazer uma pequena pausa dramática. Porque a imagem é deliciosa. Eu sentado numa cadeira giratória, a decidir quem entra ou sai do ecossistema cultural africano lusófono com um simples levantar de sobrancelha.
A realidade é menos cinematográfica.
A BANTUMEN não é uma página de Instagram. É um órgão de comunicação online português, devidamente registado, focado em cultura. Temos sede em Lisboa e sobrevivemos de marketing de conteúdo, publicidade de pequenas marcas e peças patrocinadas.
Os amigos são maravilhosos. Mas não pagam salários.
E, já agora, depois de 72 horas a olhar para o teu trabalho, arrisco dizer algo com alguma ironia. O teu trabalho, apesar de interessante, parece existir bastante confortável dentro do ecossistema dos teus próprios círculos.
O que não é um crime. Todos fazemos isso.
Tenho apenas mais oito anos de vida do que tu. Isso significa que provavelmente temos mais coisas em comum do que diferenças. Eu assumo facilmente os meus defeitos e evito falar das poucas qualidades que me atribuem.
Acredito numa comunidade. Não numa comunidade onde todos gostam uns dos outros. Isso seria insuportável. Acredito numa comunidade onde as pessoas conseguem respeitar o trabalho umas das outras.
Já seria um bom começo.
Sobre o comentário “mais alto por favor”, confesso que tive um impulso inicial. Durante uns 30 segundos imaginei responder nas histórias do Instagram. Felizmente, tenho um pequeno mecanismo interno que chamo de Grilo Falante. É uma espécie de consciência sarcástica que aparece antes de eu fazer disparates públicos.
Ele impediu-me de publicar coisas bastante menos elegantes.
Coisas como dizer que vou sempre criticar quem fizer asneira, seja mulher negra ou não. Ou que não tenho grande medo de exposição pública. Ou que algumas pessoas gostam muito de atacar os seus semelhantes enquanto mantêm uma estranha docilidade perante estruturas de poder muito mais agressivas.
Enfim. O Grilo Falante fez o seu trabalho.
E ainda bem.
Porque no fundo isto é mais simples do que parece.
Estou demasiado ocupado a tentar transformar a BANTUMEN numa empresa que dure 50 anos. Ainda faltam 40 para isso acontecer. Hoje, a minha preocupação é garantir o salário de cinco pessoas e sustentar uma família com três filhas. Uma delas tem dezoito anos e precisa bastante mais da minha atenção do que qualquer discussão digital.
Quem me conhece sabe que, por causa do tal diagnóstico do DSM-5, vivo responsabilidades de forma bastante intensa. Quando se trata de garantir que tudo funciona, entro num modo de hiperfoco quase obsessivo.
Família, equipa, comunidade.
Sim, comunidade. Porque ela existe.
E, curiosamente, a forma apaixonada como defendeste a minha DJ favorita prova exatamente isso.
Para terminar, vou fazer aquilo que nós, negros, tantas vezes fazemos neste mundo: bater nos nossos.
Aos amigos da BANTUMEN que trabalham comigo e a quem nunca escondi os meus problemas de foro psiquiátrico, deixo isto claro: sim, sou uma pessoa tóxica. Sou alguém que diz tudo o que pensa e que muitas vezes age como se não tivesse dívidas, pelo menos não com pessoas físicas - só com o Estado e com instituições bancárias.
Quero perguntar-vos uma coisa muito direta: algum de vocês já sentiu, alguma vez, este poder que me atribuem de decidir quem entra ou não entra na BANTUMEN?
Eu adoraria que explicassem aos vossos amigos que sou um empresário, empreendedor, homem de negócios, gerente, gestor, administrador, diretor, dirigente e proprietário. E que, por isso mesmo, nunca perdi muito tempo a pensar em amizades.
Em toda a minha vida tive apenas um melhor amigo. Passei mais de dez anos sem falar com ele e, ainda hoje, quando me perguntam quem é o meu melhor amigo, respondo sempre: é o Tarcísio. A verdade é que nem sei onde ele está hoje ou que vida leva. O que existe é mais a nostalgia do que vivemos juntos do que uma amizade presente. E talvez seja isso que, até hoje, faz dele o meu melhor amigo.
Por isso, minha sócia, meu CBO, minha diretora e minha freelancer favorita, expliquem à nossa amiga produtora de conteúdo uma coisa muito simples: o que me move não são likes nem parcerias.
O que me move é fazer da BANTUMEN uma empresa quinquentenária.
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Abraços,
Eddie Pipocas






