OFF-STAGE #32 A Crise dos 11 Anos, o Salário da Marisa e a Liderança que Ninguém Encontra
Meus caros, onze anos depois, continuo aqui. Mais cansado, talvez. Mas ainda a perguntar por nós. Sobrevivemos mais de uma década a tentar, a testar e a criar uma comunidade onde o foco sempre foi o mesmo: nós por nós.
Estive ausente desta newsletter durante quase um mês. Não por estar parado, até foi quase o contrário. Tenho andado mais ativo do que nunca como jornalista na BANTUMEN; escrevi sobre o festival Morabeza LX; entrevistei o Rodrigo Cardoso, a Georgina Angélica, o Miller Gama “Clay”, o Safari, a Soya e a Zia Soares. Meti as mãos onde antes talvez só metesse a cabeça. Estive tão ativo que, visto de fora, parecia ausência.
Entretanto, a nossa equipa cresceu. Temos a Joana, a Marisa, o Nuno Silva. Estamos a tentar organizar melhor a frente editorial, a publicar com mais critério, a fazer menos “só porque sim”. Mas senti falta de uma provocação. De uma pergunta chata. De um “mas o que é que esse gajo pensa?” para além do “e então?”. Senti falta de não deixar as minhas ideias a viverem apenas no vácuo da minha cabeça.
Vivemos tempos estranhos. Guerras na Europa, no Médio Oriente, no Congo. Presidentes que se comportam como senhores feudais e governos que tentam remar contra a maré como se fosse uma extravagância. E no meio disto tudo, a BANTUMEN continua focada numa cultura que, às vezes, parece cada vez mais inexistente.
Sinto que o protagonismo negro se tornou uma fábula. Não temos um líder. Não temos alguém que assuma o comando por nós e não falo só de Portugal, falo do mundo. Estupidamente, sinto que estamos a declinar. Nós, que já fomos donos do nosso próprio protagonismo, seja a nível social, através das lutas de independência, ou cultural com a expansão do rap, agora parecemos acreditar que, sem “eles”, não vamos a lado nenhum. Mesmo em África, o pensamento continua refém da Europa e da América.
E nós, pobres negros aqui na Europa, sabemos que muitas portas só se abrem quando abraçamos o outro lado. Então pergunto-me: nestes últimos onze anos, o que é que a BANTUMEN esteve a fazer? Que comunidade estivemos a criar?
A verdade é que o nosso evento mais popular é a Powerlist. Convite fechado, número definido... e enche. Mas e os nossos eventos pagos? Esqueçam. É sempre 60, 70%. E nós ali, a fazer contas, a sorrir e a fingir que não dói. Onde está essa comunidade? Existe a comunidade angolana dos novos imigrantes, a cabo-verdiana antiga... mas será que somos unidos? Ou só estamos juntos quando há Mundial?
A comunidade guineense, que eu gosto de chamar “cultural” - para tentar acreditar que a cultura não é só uma desculpa para coisas erradas. E São Tomé? São Tomé não tem comunidade. São Tomé é o Wilds Gomes a família dele, o Carlos Pereira, a Neusa Sousa e mais três ou quatro pessoas. Desculpem, mas não conta.
Sinto que estamos só a tentar aparecer. E que não existe nada, mesmo nada, feito por nós que nos proteja. Se me acontecer uma injustiça hoje, a SOS Racismo mexe-se, a Vida Justa mexe-se... mas a nossa comunidade negra, enquanto corpo político, tem esse comando? Se tivéssemos de citar um líder negro hoje, alguém que falasse por nós e nos agregasse, quem seria? Eu não sei.
Nos EUA, a cena anda estranha. O rap perdeu o norte. A treta entre o Kendrick e o Drake mostrou que há barulho e indústria, mas liderança? Em Portugal, o Plutónio, o Prodígio, o Slow J e a Nenny continuam nos tops, mas não vejo uma simbiose entre a música deles e a forma como comunicamos sobre eles.
Pode ser desvario da minha cabeça. Pode ser a crise dos onze anos. Pode ser a idade quatro décadas pesam. Uma filha de 18 anos, duas quase com 10. Pesa no corpo e nas perguntas: onde é que eu estou? O que é que isto tudo está a construir? Às vezes, a minha falha pessoal parece-me uma falha coletiva. Espero que seja só um “tico e teco” desalinhados.
A minha ausência aqui teve a ver com isso. Estou mais dentro das reuniões, com mais poder de decisão. Estamos a desenhar a Powerlist outra vez e a correr atrás do dinheiro, como sempre. Tivemos recuos de algumas marcas, avanços de outras. Estamos a ser BANTUMEN.
Mas, às vezes, acho que o verdadeiro nome da BANTUMEN devia ser “Hustlers”. Porque o nosso fundo de caixa é fraco. Muito fraco. Quando as coisas não correm bem, trememos para pagar salários. E não falo de luxos. Falo do salário da Marisa, do Nuno, da Joana e o meu. A Vanessa ainda não precisa de salário (é herdeira, sorte a dela). São quatro mil euros por mês só em ordenados, fora servidores, domínios e a máquina invisível que, se falha, toda a gente nota.
O Wilds Gomes que também não tem salário é o nosso principal ativo com o seu imenso sucesso na TV e tem ido atrás de muito dinheiro para manter a máquina viva. Mas, nos últimos dias, senti necessidade de recuar e voltar ao conteúdo básico, aquele que se faz em quantidade para garantir um salário. Voltámos a replicar uma fórmula do passado: ir buscar quem ainda não está propriamente preparado para se expor, mas quer muito aparecer. E, quando há algum dinheiro envolvido, a editora acaba por fazer vista grossa. Na maioria dos casos, falamos de novos artistas, com discografias curtas, pouca estrutura e muita vontade de se mostrarem. Fui atrás deles para reforçar o fundo de caixa. Temos também negócios com a Universal, Altafonte, Gulbenkian... mas há uma coisa linda chamada “prazos de pagamento”. Emitimos faturas, mas o bolo nem sempre cai no dia 1. E os nossos colaboradores não vivem de “está quase”.
Sempre que o dinheiro aperta, a pergunta volta: valeu a pena largar tudo por este projeto? Nisto tudo, recebemos emails giros a dizer que a BANTUMEN é necessária. Encontrei um mano a fazer um mestrado em Direito sobre a importância da nossa plataforma. Agradeço, a sério, mas se somos tão necessários, porque é que sobrevivemos sempre no limite?
A BANTUMEN tem uma audiência de seis a oito mil pessoas por dia no site. Alcança dois milhões por mês no Instagram. Somos um ativo na sociedade. Devia haver mais interesse em publicidade e parcerias. Mas se a comunidade PALOP está dividida em pequenas “ilhas” por país, que comunidade é que temos, afinal? O que interessa em Cabo Verde interessa aos angolanos em Portugal? Como se faz a ponte entre todos nós numa única plataforma?
Deixo-vos com essa pergunta. Como é que fazemos para, nos próximos dez anos, termos uma comunidade mais inteira? Se o “Presidente Laranja” resolver acabar connosco, ninguém nos vai defender. Se formos chamados para uma guerra na Europa, quem vai discutir isso por nós?
Acho que não estou fixe. Bateu a crise dos onze anos. Ajudem-me. Dêem-me nomes. Quem nos está a liderar? Como criamos algo mais unido? É possível um grupo de WhatsApp com toda a comunidade para tomar decisões juntos?
Obrigado a quem ainda me lê. Peço desculpa pelo desabafo, mas onze anos a segurar o barco sem sentir que ele anda é frustrante.
Até para a semana (ou daqui a quinze dias).
Abraços,






Cota,
Li isto até ao fim e senti o peso dessas palavras. Quem está de fora vê os eventos, as entrevistas, os números e os prémios. Raramente vê as noites sem dormir, a pressão de pagar salários, a responsabilidade de manter uma visão viva durante onze anos.
Não tenho respostas para as perguntas que deixaste, mas sei uma coisa: a BANTUMEN já mudou muitas vidas, deu voz a muita gente e abriu portas que antes nem existiam. Isso não é pouco.
Acredito que a frustração que sentes vem precisamente de te importares tanto. Quem não se importa já teria desistido há muito tempo.
Obrigado por continuares a segurar o barco, mesmo quando o mar não ajuda. Pode não parecer todos os dias, mas há muita gente que vê valor no que construíste e no impacto que continuas a ter.
Força, cota. Onze anos não se fazem por acaso.