OFF-STAGE #33 A Marisa, o Medo da Supremacia e a Arte de Não Morrer como Bandido
Meus caros, estou de volta. E sinto-me, cada vez mais, como o velho rabugento do filme “Up”.
Parece que o meu único propósito aqui é vir reclamar do mundo, das faturas e da falta de sono. Mas a verdade é que estou mergulhado num daqueles tempos de reflexão que te reviram as entranhas. Na BANTUMEN, as coisas estão a acontecer: negócios a surgir, contratos tóxicos a serem finalmente enterrados e uma estabilidade que, há uns meses, parecia uma miragem no deserto. Mas, como diz o povo, quando a esmola é muita, o santo não só desconfia, como se prepara para o impacto.
Esta semana, o impacto teve um nome: Marisa. A nossa Marisa. A miúda que está connosco há seis anos, que cresceu connosco e que hoje é a diretora da BANTUMEN. Ela foi sinalizada pela RTP. Sim, a televisão pública, o “Olimpo” da comunicação em Portugal, quis levá-la. E aqui a coisa bateu forte, como um soco no estômago. De um lado, a alegria por ver uma mulher preta, portuguesa, que conhece esta cultura como ninguém, ser reconhecida pela maior marca do país. Do outro, o pânico de perder a minha âncora. O meu inconsciente, esse pessimista de serviço, já a via a apresentar o “Preço Certo” daqui a dez anos. “Ela vai escolhê-los a eles“, pensava eu. “É a escala, é o brilho, é a segurança.” Mas a Marisa ficou. Por razões que o destino (e talvez a estranheza do processo) explicam, a cena não andou. E eu fiquei ali, num limbo emocional: triste por ela não ter agarrado um sonho, mas com uma alegria egoísta e visceral por ela continuar na nossa trincheira.
Financeiramente, o nosso primeiro semestre foi um corredor da morte. Deixar de pagar um salário seria um balão de oxigénio, mas trabalharíamos o triplo para cobrir a excelência dela e eu, meus amigos, nem de perto chego à qualidade da Marisa. A Vanessa agora é a “senhora rato de escritório”, a Joana está a ganhar músculo editorial, mas a Marisa... a Marisa é o sangue que corre nestas veias. Isto faz-me ferver o sangue: quando é que terei a “googlização” da BANTUMEN? Quando é que poderei dizer a quem recebe uma proposta de fora: “Não te preocupes, fica aqui. Queres um carro novo? Vai ao RH que a “Selma” passa o cheque para ires à Mercedes buscar o teu.” Sonho com uma Dona Jerusa contratada só para cuidar dos filhos da equipa (como a prole do Wilds, isto é que seria serviço público). Mas a vida não é Silicon Valley; é um pacto de sangue entre o salário e a missão. E o salário, essa besta pragmática, ganha quase sempre.
Eu já não sou o Eddie de 20 anos que dormia quatro horas e dava cambalhotas na rua. Hoje, a dor empresarial pesa. Passámos meses sem ver um cêntimo do nosso trabalho direto e quando és o dono e não há dinheiro, não tens a quem reclamar. Tu és o problema. Tu és o nó. A Marisa ficou, e espero que isso seja uma missão. Eu nunca prometi nada antes dos 20 anos de casa. Faltam dez para as coisas explodirem de verdade. Quero uma diretora de long time para eu ter tempo de ir buscar o dinheiro. A BANTUMEN é isto: trabalhamos mais de oito horas, mas podemos sair da cama às onze ou cuidar da avó doente, desde que o portátil esteja no colo. O salário não é de luxo, mas está acima da média. E progressão de carreira? Eu comecei a limpar o chão e hoje carrego o piano. A Vanessa era a miúda das “coisinhas” e hoje é a CEO.
Mas há uma sombra que me persegue: contar estas crises é bom para a marca? Eu não quero histórias tristes, quero vitórias. E é por isso que, às vezes, me calo. Sinto o mesmo com os vlogs. Em Lisboa, com o Wilds e o Nuno, há vida. Aqui em França, a 20 minutos de Paris, a cena é violenta. É lutar com a Vanessa por uma ideia ou com a contabilidade por um pagamento. Não há poesia em filmar discussões sobre faturas.
E agora, o murro final: a BANTUMEN saiu numa lista de alvos da supremacia branca e de grupos nazi. Estamos lá, ao lado do Marcelo e do Primeiro-Ministro. Por um lado, a vaidade bate: “Porra, estamos a incomodar os gajos certos.” Estamos a mostrar que negros como a Yolanda Tati ou o Cláudio França constroem este país para além do trabalho braçal. Esta história não foi novidade para nós. A BANTUMEN já sofre ataques hackers constantes e sabíamos que vinham de algum lado mas agora veio a confirmação e o medo ganhou corpo. Eu não temo pelo Marcelo, mas temo por mim, a descer a Calçada do Combro e levar uma facada porque alguém me reconheceu do vlog. E o pior? A notícia diria: “Homem negro assassinado, provavelmente traficante.” Nunca diriam que morri pelas minhas ideias, a menos que a SOS Racismo fizesse um barulho ensurdecedor. Sou pai de três filhas - a mais velha tem 18 anos e ainda está a descobrir o mundo. Eu preciso de, pelo menos, mais 20 anos de vida para garantir que elas fiquem bem. Não quero morrer pela supremacia branca sem ser chamado de herói. O Nuno avisou-me: “Eles querem eliminar-nos e tu andas a fazer vlogs.” Ele tem razão. Ao mostrar a equipa, estou a pôr um alvo nas costas deles também. E essa responsabilidade é um fardo que me tira o sono. Foi por isso que parei de fazer vlogs em Lisboa, porque não quero filmar o Rachide a trabalhar e depois o Rachide morrer por causa disso. Oficialmente, os niggas vão morrer como bandidos e nunca como pessoas assassinadas pela supremacia branca. Pior do que a ameaça é a invisibilidade da ameaça.
Fora isso, as coisas têm andado. Contratos tóxicos a terminar, novos contratos a aparecer, a malta mais estável... Novo semestre e fomos à procura de marcas africanas em França. A vantagem de estar aqui perto de Paris é que há marcas com foco num público negro sem complexos - a França tem uma ligação com África que não é só histórica, é atual e é diária. Em Portugal também existem marcas assim, mas preferem não assumir que há um nicho negro. Aqui não há problema nenhum com isso.
Sentámo-nos com uma empresa de transferências de dinheiro entre a Europa e África. O deal inicial era para a BANTUMEN. Mas quando percebemos a dimensão, fomos buscá-lo para a Hausdown, a agência que dirijo com a Vanessa e a Ana Rita. E depois fizemos mais: convidámos outros criadores pretos portugueses para entrarem no mesmo deal. Podcasts, influencers, empresas de comunicação... A partir de julho vão ver esta marca espalhada por todo o lado. Não sou uma boa pessoa por ter feito isso, até porque Jesus era bom e foi morto. Sou estratégico. Trazer marcas de outros pontos do mundo para perceberem que Portugal existe pode ajudar a que percebam que há uma estrutura com mais de dez anos a fazer acontecer. E pode ajudar a que os meus irmãos percebam que já conseguimos nos unir para todos ganharmos dinheiro no mesmo espaço e que já não somos só empregados, somos empreendedores. E aí faz sentido odiarem-nos. Agora. Como empreendedores. Como pessoas com ideias próprias. Como pessoas a comprar casa, a ter filhos adultos, a ir a Ibiza. Odiarem-nos como serventes não fazia sentido. Odiarem-nos como isto faz todo o sentido.
Sobre ser filho único. Já escrevi aqui que sou filho único. E que durante anos fiz de tudo para ter irmãos - não biológicos. Agarrava-me a amigos, a primos, convertia-os em melhores amigos, depois tentava que viessem trabalhar comigo. Mas no fundo, no fundo, a única coisa que queria era ganhar um irmão. Imagina o número de frustrações acumuladas a tentar converter pessoas não tão próximas em família. Há uma cena estranha nisso: é como quando gostas de uma miúda 70% e ela gosta de ti 30%. Não estou a falar de amor de voz de bebé. Estou a falar de atitudes. De prioridades. De te porem na caixa dos amigos quando tu já estás a pensar em estrutura, em casa, em conhecer os pais. Passei demasiado tempo a tentar encontrar irmãos onde não havia. Hoje já não faço isso. Sou filho único e preciso de ser prioridade não por arrogância, mas porque é o que eu dou também. Estou há 12 anos a construir a BANTUMEN porque a transformei no centro da minha vida. Então quem quiser estar perto de mim tem de querer estar no centro. Tem de ser uma troca. Quando não há, foda-se. E foda-se. E foda-se.
É tudo por hoje. Estou farto de reclamar. Mas a minha vida está assim, os bastidores da BANTUNEN são uma coisa caótica e, às vezes, a única coisa que consigo trazer aqui é isso mesmo, caos. Quero que isto um dia se torne num livro de grandes histórias. De batalhas e de conquistas e não de reclamações.





