OFF-STAGE #34: O espaço, o sonho e a realidade de um rim à venda
Meus caros, a vida na BANTUMEN é uma montanha-russa de emoções, e esta semana não foi exceção.
Durante a Powerlist de 2025, o Presidente da Câmara de Lisboa subiu ao palco e, para surpresa de muitos, anunciou que a estrutura da BANTUMEN tinha sido agraciada com um espaço físico na cidade: mais de 70 metros quadrados, dois andares. Por trás da pompa política, havia dois anos de luta por um espaço municipal. Já tínhamos visitado alguns, mas nenhum consegui cativar-nos. Semanas antes da Powerlist, recebemos o e-mail salvador: tínhamos sido selecionados numa das muitas candidaturas que fizemos. Finalmente, o espaço físico que tanto ansiávamos.
O espaço, um rés-do-chão com cave, a dois minutos do metro, parecia abandonado há algum tempo. Eu e a Marisa, a nossa diretora, entrámos com os técnicos da Gebalis, a empresa que gere os espaços públicos em Lisboa. Na minha cabeça, um corredor amplo e luminoso ganhava forma, ideal para o que eu imaginava: um espaço para apresentações, debates, uma loja, uma livraria, acessórios – tudo o que nos aproximasse da essência da BANTUMEN. Descemos à cave, abafada e húmida, claramente fechada há muito tempo. O cheiro era horrível, a casa de banho minúscula e os objetos ali abandonados deixavam evidente que o espaço serviu anteriormente para atividades de uma associação ou algo do género.
Mas, sim, tínhamos o nosso primeiro espaço. A burocracia arrastou-se de dezembro a fevereiro, até que, finalmente, recebemos as chaves. Numa segunda visita, já com o Nuno Silva - o nosso líder em tudo o que é multimédia e muitas outras coisas mais, e os técnicos da Gebalis, olhámos para o espaço dez vezes. Estávamos empenhados em transformá-lo no melhor espaço do mundo. Contudo, a realidade impôs-se: o rés-do-chão era irrespirável. Impossível termos ali pessoas a trabalhar oito horas por dia. Entretanto, começamos a pagar renda de algo que ainda não estávamos a usufruir. O espaço que eu imaginava era novo, moderno e o que tínhamos ali era velho, inadequado e com uma infiltração gigantesca. Fechava os olhos e via o sonho; abria-os e não via nada. Não conseguia imaginar como compor aquilo.
Surgiu um novo paradoxo: como resolver isto? As ideias na redação eram: “Vamos dar um jeito, arranjar o tio da esquina, fazer umas obras, dar uso ao nosso espaço.” Mas aquilo não me convencia. Não era o nosso espaço, não era o que eu sonhara. Claramente, sou um sonhador, cheio de ilusões, sem dinheiro, mas que queria ter um mini-escritórios da Google para os meus colegas. Acho que levo com tanta imaginação, com tanta treta da net que, quando imagino o meu espaço, imagino sempre algo acima do que a realidade pode garantir. Recusava-me a imaginar um sítio como aquele para a nossa redação. Era quase impossível trabalhar ali como sonhei.
Com o pouco tempo de sono que tenho, nunca um sonho meu demorou tanto. Nunca um sonho meu foi real, porque, ao fim de 3 ou 5 horas, acordas e a realidade bate: continuas a trabalhar em home office, a fazer reuniões via Meet, e a pagar uma renda por um espaço que não usas. É agora que entra o plano: vamos mudar esta cena e montar um grande espaço.
Também na Powerlist, conheci o Michel Zeca, um arquiteto renomado, um dos cérebros por trás da renovação do Museu Nacional de Arte Contemporânea em Lisboa. Um angolano nascido em Cuba que se tornou amigo e aceitou o desafio: “Bora, Michel, vamos fazer um projeto giro a custo baixo para renovar este espaço da BANTUMEN.” Michel visitou o espaço e percebeu que o buraco era muito mais embaixo. A estrutura arquitetónica do prédio era questionável. “Eddie”, disse ele, “renovar isto por menos de 30 mil euros é quase impossível.” E eu: “Companheiro, a última vez que ouvi falar em 30 mil euros foi quando pensei em vender um rim para pagar a faculdade.” Não sei se quero vender um rim para ter um espaço para a BANTUMEN.
Além disso, é um espaço alugado na Câmara de Lisboa que nunca será nosso. Faz sentido investir 30 mil euros (que ninguém tem) num espaço que nunca será nosso? Mas foi de malucos que o mundo se fez! Michel avança com o projeto, e a minha única missão era perceber quem queria comprar um rim. Durante mais de 40 anos, não bebi álcool e usei poucas drogas, consigo correr 5 minutos sem parar e tenho uma disposição física absurda. Acredito que ainda consigo dar uma queca numa amiga de 20 anos e parecer que também tenho 20. Então, o meu rim deve valer alguma coisa.
Comecei a trocar e-mails, a chatear alguns amigos ricos em Angola. Apresentei uma proposta. Malta, eu quero 30 mil euros, mas nem sequer quero dar 1% da BANTUMEN. Como consigo 30 mil euros de um samaritano do nada? É quase impossível. Mas sentei-me e tentei perceber quem poderia estar interessado em adquirir parte do projeto da BANTUMEN. Quais são as regras para fazer parte da BANTUMEN? Primeiro, investir mais de 60 mil euros. Se precisamos de 30, claramente precisamos pedir o dobro. Já vi muitos quadrinhos, sei bem como funciona a estratégia do Tio Patinhas.
Se o arquiteto me dá um orçamento de 30 mil euros, com as dívidas que temos, claramente precisamos de 60 mil euros. Comecei a trocar e-mails e parece que há pessoas interessadas na BANTUMEN. A BANTUMEN pode ter novos sócios. Que tipo de sócios eu quero na BANTUMEN? Claramente, quero um sócio que me deixe parecer que sou o fundador, que 95% das ideias sejam minhas, que não mude a nossa ideia de redação. É complexo querer dinheiro, ter parte da empresa, mas não querer que essa pessoa mande na empresa. Mega complicado.
Então, acredito que muitas pessoas leem a minha newsletter, e isto é como uma carta aberta. Malta, a malta está a precisar de dinheiro. Não quero fazer um crowdfunding, longe disso. Não quero juntar dinheiro para renovar uma cena. Quero ter sócios, quero pessoas que usem a cabeça para montar este espaço da BANTUMEN. Acho que vai valer a pena, entendem? Sendo Lisboa, a dois minutos do metro, vamos negociar, vamos chegar a um acordo. Fizemos 60 mil euros e estamos dispostos a dar de 10 a 15% da BANTUMEN. O meu email é eddiepipocas@bantumen.com. Enviem-me propostas, vamos conversar.








Eu sei que têm várias poupanças, criptomoedas, dinheiro no banco, debaixo do colchão, mas para que serve esse dinheiro parado ou com taxas irrisórias ? Vem aí a guerra. Então, a questão é nos juntarmos todos e montarmos um espaço, uma redação, que possamos usar para a nossa luta, para escrever, para fazer podcasts e para os filhos do Wilds virem partir. Acho que 11 anos depois de fundarmos a BANTUMEN, já estamos prontos para termos um espaço físico. Já temos o temos, agora só falta mais um passo para o ocuparmos, a renovação. Temos as chaves desde fevereiro. Já pagamos umas tantas rendas. Temos um arquiteto ultra reconhecido, mega estudado, preto, bonito, com escritórios na Itália e em Lisboa, com projetos aprovados por grandes estruturas europeias. Então, não se acalmem. Bora conversar, bora falar, que o mais difícil até já conseguimos, que é o espaço, com uma renda acessível, perto de tudo. Então, sim, esta é a minha newsletter, esta é a ideia de hoje. Fico à espera dos vossos mails.
Até já, manos e manas, é tudo por hoje.
Abraços.






