OFF-STAGE #35: De Quem Depende a BANTUMEN?
Meus caros, cá venho eu novamente ao muro das lamentações.
Meus caros, cá venho eu novamente ao muro das lamentações. Quando não é a falta de dinheiro, é a falta de respeito ou a gritante ausência de consideração. Mas, antes de descalçar as botas e encostar-me ao meu santuário particular, deixem-me dizer que as quase 4.000 pessoas que leem esta newsletter são para mim o que Meca representa para o Islão: a minha base, o meu norte, o meu motivo de peregrinação semanal.
A ideia da BANTUMEN nasceu há quase 15 anos e materializou-se nos últimos 11. A nossa base foi quase sempre a música e, em especial, o Hip-Hop. Talvez eu seja uma espécie de Joe Budden que não deu certo no rap e montou um site para contar as histórias que os outros ignoravam. Em Angola, já era um seguidor atento do Dino Cross, o primeiro jornalista que vi escrever sobre Hip-Hop e preparava as playlists para o “Explosão Musical” na TPA. Mas foi em Portugal que a coisa ficou séria. Entrevistei o Masta em 2006, os Kalibrados no Delta Tejo em 2007, o Samurai no Colombo... Daí em diante, foi um abrir de portas: Bob da Rage Sense, Tekilla, Plutonio, Força Suprema, NGA…
Sempre achei que era uma troca justa: eu contava as histórias deles e eles davam-me os exclusivos. Mas, com a evolução da BANTUMEN para esta plataforma pioneira no foco cultural PALOP, parece que alguns artistas e empreendedores se esqueceram de quem lhes deu palco quando mais ninguém queria saber. Hoje, há quem acredite que a BANTUMEN existe por causa deles, ignorando que o mundo só conhece as suas histórias porque nós as contámos durante mais de uma década.
Vou contextualizar, porque isto não é a primeira vez e, honestamente, temo que não seja a última. Há sempre um artista que aparece com a atitude de quem nos está a fazer um favor. Lembro-me das “celebridades” que, na nossa Powerlist, ficam ofendidas porque não constam da lista do ano em questão, como se as que lá estivessem não tivessem também esse mérito. O ego fica tão ferido que espalham que somos uns desalmados que não respeitam o seu legado. Ou aqueles que enviam SMS a reclamar que escrevemos sobre eles sem avisar, quando foram as suas próprias agências a enviar os comunicados. Poderia dar muitos outros exemplos de situações caricatas, outras até hilariantes.
E depois há a questão racial, sempre ela. Há quem nos diga: “Sigo o vosso trabalho, mas tenho muitos amigos brancos que me ajudam mais do que a comunidade.” Eu sei que sou incisivo, que pico, que fujo da mesmice. Numa entrevista recente a um rapper da “nova praça” que tinha um feat com um artista branco, fiz perguntas duras. O porquê da colaboração, a base da relação, o que não funcionou. A editora aprovou a edição em vídeo após duas semanas. Mas, no momento de publicar, o artista branco decidiu que uma citação sua não fazia sentido e queria que tirássemos a entrevista do ar. Como jornalista, neguei-me. Não houve manipulação, não houve contexto distorcido.
O resultado? Recebi um telefonema do manager do rapper negro - um miúdo de 23 anos que deve achar que o mercado começou ontem - a ameaçar a BANTUMEN. “Se não tirarem a entrevista, vamos cortar portas, vocês deixam de aparecer, já proibi os meus artistas de falarem convosco.” Eu faço isto há 20 anos, rapaz. Quando comecei, tu tinhas três anos. Ver um negro a ameaçar a única estrutura que realmente lhe dá palco para defender o capricho de um artista não-negro é, no mínimo, irónico. Ou a cantora que vem à nossa redação dizer que só recebe “love” de brancos, mas quando lhe pergunto se ela inclui negros na sua produção, cria-se um mal-estar e a manager pede para apagar essa parte da entrevista.
O caso mais recente envolveu o podcast do Yankee, um jovem incisivo cujo conteúdo incubamos na nossa plataforma. Um artista de topo, um dos cinco negros mais ouvidos em Portugal, alguém com quem trabalhei durante oito anos e com quem tinha uma ligação afetiva, sentiu-se desrespeitado pelas palavras do Yankee. Mandou um ultimato: “Ou o podcast sai do ar, ou nunca mais trabalho com a BANTUMEN.”
Reunimos a “assembleia”: eu, a Marisa, a Vanessa e o Wilds. Embora eu ache que quem ouve o podcast até ao fim percebe que não há desrespeito, a realidade empresarial bateu à porta. Portugal é um meio pequeno. Se este artista começa a “queimar” o nosso nome junto de marcas e produtores, as nossas negociações sofrem. Tirámos o podcast do ar. Dói-me. Dói-me porque sou um baixinho de 1,60m que odeia ser encostado à parede. Odeio ser ameaçado. Preferia estar na merda a ceder, mas hoje a BANTUMEN não sou só eu e a Vanessa. É uma estrutura com responsabilidades.
Tenho vergonha desta fragilidade. Tenho vergonha que sejamos o único órgão de comunicação social a dar palco a um nicho tão sensível que qualquer crítica “apaga” o que foi construído ao longo destes últimos 11 anos. Tenho vergonha de saber que há quem não dê entrevistas à BANTUMEN porque escrevemos sobre negros e acham isso “discriminatório” ou temem que o público branco os rotule. A BANTUMEN nasceu para empoderar a comunidade negra e os seus descendentes, mas o nosso foco é a cultura, não a raça. Um sul-africano branco é africano. O Charbel é guineense. O Luaty é angolano. É sobre a cultura dos diferentes PALOP, embora, claro, damos prioridade a quem não tem outros espaços de visibilidade - que por norma são sempre os negros.
Damos primazia a quem faz, aos propulsores da cultura, e não apenas a quem ganha dinheiro com ela. Porque, sejamos honestos, as pessoas negras ainda não são devidamente pagas pela sua própria cultura, exceto talvez em França, falando num contexto europeu.
Isto é um desabafo. Quero que saibam que tenho vulnerabilidades e que a BANTUMEN não está 100% sob a minha alçada ditatorial. Adoraria dizer “isto fica e ponto final”, mas somos uma empresa, com uma revista com inscrição na ERC, com contas para pagar e uma missão para manter. Queremos continuar a dar amor a esta comunidade afro-diaspórica, mas exigimos respeito. Onze anos depois, já ninguém devia ter vergonha de ser quem é. Somos todos parte desta “comunidade BANTUMEN”.
Vou terminar por aqui. Aos subscritores pagos que deixaram de contribuir: ativem esses cinco euros novamente. A minha criatividade está a voltar e o vosso apoio é o que mantém esta newsletter viva. Para quem não pode, tudo bem. Para quem pode, precisamos de ti para a manter a independência.
É o Eddie Pipocas, aqui convosco. Abraços e até à próxima semana.




