Há qualquer coisa em mim que desconfia quando as coisas começam a correr bem. Não sei se é trauma, hábito, personalidade, signo, falta de terapia ou simplesmente uma vontade muito específica de complicar a minha própria vida. Provavelmente é um bocadinho de tudo. O que sei é que, quando o chão finalmente parece firme, eu tenho uma tendência estranha para começar a saltar em cima dele só para perceber se parte.
Na última newsletter falei-vos da nova redação da BANTUMEN, ou melhor, da possibilidade concreta de ela finalmente existir. Depois de termos conseguido o espaço da Câmara Municipal de Lisboa, faltava uma parte relativamente importante do plano: dinheiro. Esse pequeno detalhe que costuma separar uma ideia muito bonita de uma obra com eletricidade, mesas, cadeiras, casas de banho e pessoas a trabalhar lá dentro.
Disse-vos que estava à procura de sócios, amigos do projeto e pessoas que acreditassem nesta nova fase da BANTUMEN. Uma BANTUMEN com mais de uma década de vida, mas que não pode limitar-se a comemorar aquilo que já fez. Muita coisa mudou entretanto, nós também mudámos, e a Lisboa onde a BANTUMEN começou não é a mesma Lisboa de agora.
Nos últimos anos vimos nascer novas plataformas, novos coletivos, novas páginas e novas formas de falar sobre identidade, pertença, negritude e cultura. Depois do Black Lives Matter, da Nova Lisboa e de tantas outras iniciativas, começaram a surgir projetos sobre empoderamento negro, sobre identidade crioula, sobre cultura guineense, cabo-verdiana, angolana. Houve uma reorganização da conversa e acho que, de uma forma ou de outra, a BANTUMEN também ajudou a moldar parte daquilo que hoje entendemos como este novo Portugal.
Não digo isto para receber uma medalha, até porque não saberia bem onde pendurá-la. Digo-o porque, se queremos construir uma nova BANTUMEN, ela não pode fingir que os últimos dez anos não aconteceram. Não pode repetir a fórmula de quando começámos, nem agir como se continuássemos a falar sozinhos. Hoje há mais vozes, mais projetos, mais exigência e também mais ruído. É precisamente por isso que esta nova fase precisa de fazer sentido.
Foi enquanto pensava em tudo isto que, nas últimas semanas, me aconteceu uma coisa aparentemente sem importância. Estive em Cabo Verde, saí de Cabo Verde, voltei para Paris, onde vivo, e depois fui para Lisboa. Passei uma semana com as minhas três filhas e, no meio dessa semana, houve momentos em que elas acabaram por entrar um pouco nesse meu universo de trabalho.
Num desses dias estávamos num espaço com o Nuno, a preparar uma entrevista. O Wilds Gomes ia entrevistar connosco um artista cabo-verdiano-estadunidense e levou os dois filhos. Eu estava com as minhas (Matilde e Camila) e a Rita, minha sócia na Hausdown, também apareceu. De repente, aquilo que devia ser apenas uma entrevista transformou-se numa mistura muito boa entre redação, família, miúdos, trabalho, conversas, telemóveis e aquela sensação de que ninguém sabe muito bem onde termina uma coisa e começa a outra.
Foi nesse contexto que os miúdos ensinaram-me a “farmar aura”. Confesso que fiquei a olhar para aquilo como um pai que percebeu, de repente, que já não domina completamente a língua dos próprios filhos. Eles explicavam com uma naturalidade absoluta e eu tentava acompanhar com aquela dignidade particular dos adultos que percebem metade, mas abanam a cabeça como se estivessem completamente por dentro do assunto.
O mais interessante, no entanto, não era sequer perceber o que significava “farmar aura”. Era perceber que aqueles miúdos tinham todos uma linguagem comum. Uns vivem em Lisboa, outros no Reino Unido, outros em França. Têm menos de dez anos, cresceram em países diferentes, falam línguas diferentes, têm rotinas diferentes e, mesmo assim, encontram-se num território comum que nenhum de nós, adultos, construiu conscientemente para eles.
Esse território é a internet. Eles seguem os mesmos influenciadores, conhecem as mesmas tendências, repetem as mesmas expressões, riem-se das mesmas coisas e reconhecem imediatamente os mesmos códigos. Não decidiram criar uma comunidade, não fizeram um manifesto, não abriram uma associação e não organizaram um encontro para discutir aquilo que os une. Simplesmente pertencem.
Talvez tenha sido isso que me ficou na cabeça, porque eu passo uma parte significativa da minha vida adulta à procura exatamente daquilo que aqueles miúdos parecem encontrar sem esforço: comunidade, conexão e uma linguagem comum. Na BANTUMEN pensamos constantemente sobre isso. Como chegamos às pessoas? Como falamos com esta geração? Que histórias interessam? Que linguagem usamos? Que comunidade estamos realmente a construir?
Depois aparecem seis miúdos numa sala, pegam num telemóvel, começam a falar de “farmar aura” e resolvem em quinze minutos aquilo que nós, adultos, provavelmente transformaríamos num PowerPoint de quarenta páginas. Talvez porque eles ainda não tenham os nossos filtros. Nós temos demasiadas coisas para proteger: reputação, carreira, posicionamento, ideologia, dinheiro, ego, coerência. Temos de medir o que dizemos, quem está a ouvir, quem pode interpretar mal e quem pode fazer um screenshot. Eles ainda conseguem simplesmente existir e talvez por isso consigam pertencer mais depressa.
Enquanto observava aquilo, comecei inevitavelmente a pensar em mim, e já não apenas na BANTUMEN. Ultimamente tenho dado por mim a reconhecer um padrão que não é particularmente bonito, mas que já não consigo fingir que não existe. Quando as coisas estão mal, eu sei funcionar. Quando há caos, urgência, falta de dinheiro, atrasos e incerteza, fico estranhamente confortável. É quase o meu habitat natural. Se houver um incêndio, eu arranjo um extintor. Se houver tranquilidade, começo imediatamente a tentar perceber de onde vem o cheiro a queimado.
Na minha vida pessoal acontece-me algo semelhante. Tenho uma relação estável, um love de alguns anos, onde há conversa, apoio, planos para o futuro e aquelas discussões normais sobre aquilo que está certo ou errado. Existe trabalho dos dois lados e existe uma tentativa real de construir alguma coisa. No entanto, às vezes, quando tudo parece demasiado alinhado, alguma coisa em mim fica incomodada. Como se a paz fosse suspeita ou como se uma relação que está bem tivesse necessariamente de estar a esconder algum problema.
Combinamos ir para a direita, eu quero genuinamente ir para a direita e concordo que a direita é o melhor caminho. Mesmo assim, passado algum tempo, arranjo maneira de puxar tudo para a esquerda. Não porque queira ir para a esquerda, mas porque parece existir uma parte de mim que precisa de testar se o carro capota. Arranjo uma reclamação, uma discussão, uma coisa que faltou, uma coisa que podia ter sido dita de outra maneira ou um detalhe que, de repente, passa a ter a dimensão de um problema enorme.
O mais irritante é que eu consigo ver-me a fazer isto. Consigo perceber quando estou a criar uma tempestade num dia em que estava um sol maravilhoso. E existe uma diferença enorme entre boicotar aquilo que não queremos e saber boicotar aquilo que está certo. A segunda possibilidade é muito mais sofisticada e, talvez por isso, muito mais assustadora, porque significa que somos capazes de estragar precisamente aquilo por que andámos a lutar.
Foi aí que comecei a pensar novamente na BANTUMEN. Há meses que queremos este espaço e conseguimos o espaço. Precisávamos de investimento e, em menos de uma semana, apareceu um novo sócio com o dinheiro necessário para avançarmos. Estamos a preparar uma nova edição da Powerlist, estamos a trabalhar com alguns dos melhores arquitetos de Lisboa, há negócios a aparecer, há uma equipa, há uma visão e, se tudo correr como previsto, as obras começam agora em setembro.
Durante anos disse que precisávamos de determinadas condições para dar o próximo passo. Agora essas condições começam a aparecer e, em vez de sentir apenas entusiasmo, sinto também medo. Não aquele medo cinematográfico que vem acompanhado de música épica e que desaparece quando o protagonista finalmente percebe que tudo valeu a pena. É um medo mais incómodo, porque não tem uma causa concreta. É o medo de agora já não poder dizer que não aconteceu porque faltava o espaço, faltava o dinheiro, faltava o parceiro ou faltava a oportunidade.
Agora talvez aconteça mesmo, e essa possibilidade é assustadora. Talvez seja muito mais confortável desejar uma coisa do que finalmente recebê-la. Enquanto estamos a lutar existe sempre uma desculpa, um obstáculo exterior, qualquer coisa que explica porque ainda não chegámos lá. Quando conseguimos, aparece uma responsabilidade diferente: já não basta querer, agora é preciso fazer.
É isso que me leva a perguntar se não estarei a levar para os meus projetos o mesmo mecanismo que levo para as minhas relações. Aquela necessidade absurda de testar tudo, de contrariar, de puxar, de introduzir uma dificuldade só para voltar ao território que conheço melhor. O caos é cansativo, mas pelo menos é familiar. A estabilidade, às vezes, exige uma confiança que eu ainda não sei se tenho.
Talvez por isso os miúdos me tenham impressionado tanto naquela tarde. Eles ainda conseguem aceitar uma coisa pelo que ela é. Uma brincadeira é uma brincadeira, uma tendência é uma tendência e uma pessoa pode entrar numa sala e, cinco minutos depois, já pertence. Nós chegamos à idade adulta e começamos a exigir garantias a tudo: ao amor, à amizade, ao trabalho, aos projetos e até à felicidade. Queremos saber quanto tempo vai durar antes de nos permitirmos desfrutar e, quando ninguém nos consegue garantir nada, às vezes preferimos ser nós a estragar primeiro. Pelo menos assim sabemos quem foi.
Tenho pensado muito nisso agora que a nova BANTUMEN começa a deixar de ser uma conversa e começa a tornar-se uma coisa real, com paredes, obras, dinheiro, sócios, responsabilidades e pessoas que acreditam. Talvez o meu trabalho nos próximos meses não seja apenas construir uma redação. Talvez seja perceber se consigo viver dentro de uma coisa que está a correr bem sem sentir imediatamente a necessidade de testar a resistência das paredes.
Se gostas do que lês por aqui e te apetecer passar para a subscrição paga, agradeço muito. Não vou fingir que o dinheiro é um pormenor romântico: ajuda. E ajuda também a alimentar o meu ego o suficiente para eu pensar “olha, se calhar vale a pena continuar a escrever estas coisas”.
Dito isto, não quero ninguém a passar fome para financiar os meus devaneios. Primeiro o supermercado, a renda, a eletricidade e essa extravagância moderna que é ter uma vida minimamente funcional.
Se depois disso ainda sobrar algum dinheiro e uma inexplicável vontade de mo dar, excelente. Prometo convertê-lo em mais textos, mais histórias e provavelmente algumas opiniões que ninguém pediu.
Se não der, fica na mesma. Lê, responde, partilha, manda-me um insulto construtivo. A OFF-STAGE também se faz de quem está desse lado mesmo sem cartão de crédito envolvido.





