A minha amizade com o Nuno Varela assenta em bases financeiras pouco recomendáveis. O Nuno é, provavelmente, a pessoa que mais vezes me emprestou dinheiro, o que não sei se faz dele um grande amigo ou apenas um péssimo gestor de risco. Seja como for, quando uma amizade sobrevive a empréstimos, atrasos e à humilhação de ter de dizer “mano, sexta-feira trato disso”, já estamos para lá dos conhecidos.
Há uns dias mandou-me uma mensagem acompanhada de uma fotografia de um artigo de Ricardo Farinha publicado no Ípsilon, do Público, sobre os 30 anos do rap crioulo. Na capa estavam vários rostos ligados ao hip hop e, nas páginas seguintes, uma viagem de Djoek a Julinho KSD, passando por várias gerações de uma cultura que durante demasiado tempo foi tratada como “o som dos bairros”, como se os bairros fossem uma espécie de território estrangeiro dentro da Área Metropolitana de Lisboa. O Nuno escreveu-me: “Foda seeee, quando vamos ter Blacks a escrever sobre as nossas merdas?”
Respondi-lhe: “Vocês têm pessoas negras a escrever sobre nós há 11 anos.” Depois acrescentei: “O mundo não valoriza quem não escreve para o Público.” Era uma boca, claro. Mas quanto mais pensei na frase, menos graça lhe achei. Porque o problema não é Ricardo Farinha escrever sobre rap crioulo. Ainda bem que escreve. Quero que o Público escreva, que a RTP filme, que a SIC entre nos bairros sem ser porque alguém incendiou um carro, que as editoras contratem, que os festivais programem e que as grandes instituições percebam finalmente que aquilo a que chamam “cultura urbana” não nasceu ontem porque apareceu num palco patrocinado. A pergunta que me ficou foi outra: porque é que uma história que nós contamos há anos parece ganhar outro peso quando é contada por eles?
O Nuno respondeu com aquilo a que tecnicamente podemos chamar uma mensagem e, na prática, devia ter um ISBN. Falou-me de uma geração em que quem se queixava de racismo ou discriminação era rapidamente colocado na caixa do frustrado. Não conseguiste? Então agora dizes que é racismo. A tua carreira não correu como querias? Culpa o sistema. Não te contrataram? Talvez não fosses assim tão bom. Conheço bem esse raciocínio e percebo porque é que durante muito tempo tantas pessoas preferiram calar-se. Ninguém quer parecer vítima, sobretudo quando já passámos metade da vida a tentar provar precisamente o contrário. Só que essa explicação começa a ficar mais difícil quando quem fala já conseguiu. O Nuno não está sentado num banco de jardim à espera que descubram o talento dele. Criou plataformas, eventos, projetos, batalhas, abriu portas, fez curadoria, trabalhou com artistas durante vinte anos e hoje ainda consegue encaixar no currículo ser vereador na Câmara Municipal de Lisboa. Phoenix RDC também não está a falar porque ninguém ouve a música dele.
É precisamente isso que torna esta conversa diferente: já não estamos a ouvir pessoas a dizer “não me deram uma oportunidade”. Estamos a ouvir pessoas que chegaram e que, mesmo depois de chegarem, continuam a perceber como a corrida foi desenhada.
Há coisas na mensagem do Nuno que não precisam de teoria nenhuma. Disse-me que houve patrocinadores que lhe sugeriram que não fosse ele às reuniões porque era preto, que mandasse uma mulher ou um branco. Contou-me que lhe pediram para “branquear” um cartaz porque tinha negros a mais. Falou de uma mensagem num grupo de pessoas ligadas ao hip hop onde alguém dizia que a sorte era haver apenas “um preto sabichão”, porque se houvesse mais estavam “entregues aos macacos”. Não há grande exercício intelectual para fazer aqui. Aconteceu. E quando acontece uma vez ainda há quem consiga chamar-lhe azar, quando acontece repetidamente começa a ser preciso uma ginástica bastante sofisticada para continuar a dizer que é coincidência.
Foi também por isso que pensei em “Holocausto”, a nova música de Phoenix RDC. Não quero transformar este episódio numa análise musical nem usar a canção como ilustração conveniente de uma tese minha, mas ela entra nesta conversa porque vem do mesmo lugar: da percepção de que podemos crescer profissionalmente, ganhar dinheiro, conquistar público, sentar-nos em determinadas mesas e, ainda assim, continuar a perceber que há mecanismos de reconhecimento que não dependem apenas da qualidade do nosso trabalho. Talvez esta seja uma das mudanças importantes destes últimos anos. Já não é tão fácil responder “trabalha mais”. Trabalhámos. “Cria alguma coisa.” Criámos. “Prova que és capaz.” Provámos. E, mesmo assim, há momentos em que parece que a meta se afasta mais uns metros assim que estamos quase a chegar.
Mas houve uma parte da mensagem do Nuno onde fiquei preso. A certa altura ele pergunta, mais ou menos, se depois de tudo o que fez na música não deveria já ter tido uma Sony, uma Universal ou uma Warner a oferecer-lhe um grande cargo dentro da indústria. A primeira resposta é óbvia: sim, provavelmente deveria. Se existe experiência, currículo, rede, resultados e conhecimento acumulado, seria perfeitamente natural que uma grande editora olhasse para ele dessa forma. Mas depois apareceu-me uma segunda pergunta, menos confortável: porque é que uma Sony, uma Universal ou uma Warner continuam a ser o certificado final de que o Nuno conseguiu?
Não digo isto naquele tom irritante de empreendedor de LinkedIn que responde a qualquer problema estrutural com “cria a tua própria empresa”. Se não vos deixam entrar, construam a vossa porta. Se não vos contratam, sejam CEO. Se não têm dinheiro, monetizem a resiliência. Obrigado pela contribuição, podemos todos ir para casa. O racismo não desaparece porque uma pessoa negra abre uma empresa, nem a exclusão institucional deixa de existir porque alguém conseguiu contorná-la. A questão é outra: pergunto-me se não passámos tanto tempo a lutar por um lugar dentro das estruturas dos outros que acabámos também por aceitar que são essas mesmas estruturas que decidem quando chegámos.
Talvez isso tenha muito a ver com as referências com que crescemos. Vi recentemente um reel da Yolanda Tati que juntava vários rostos de mulheres negras que foram aparecendo no espaço mediático português ao longo das últimas décadas: Maria João Silveira, Patrícia Bull, Cláudia Semedo, Conceição Queirós, Ana Sofia Martins, Mariama Barbosa, Soraia Tavares, a própria Yolanda, Raquel Sampaio... Mais do que os nomes, fiquei a pensar nos intervalos entre eles. Nascer e crescer em Portugal durante determinados anos significava poder passar horas a ver televisão, publicidade, jornais, cerimónias, debates, novelas e programas de entretenimento quase sem encontrar alguém parecido connosco numa posição que dissesse: isto também pode ser teu. E referências não são apenas pessoas que admiramos, são possibilidades. Quando uma criança vê repetidamente quem apresenta o telejornal, quem dirige a empresa, quem entrevista o ministro, quem decide o festival, quem entrega o prémio e quem aparece na capa, vai aprendendo silenciosamente qual é a aparência do poder.
Talvez por ter nascido em Angola eu tenha uma relação ligeiramente diferente com isso. Na memória que tenho de Angola, as primeiras desigualdades que aprendi a identificar eram sobretudo sociais. Quem tinha dinheiro, quem não tinha, quem tinha acesso, quem mandava, quem conhecia quem. Não cresci a olhar para um político, um diretor, um empresário ou alguém na televisão e a pensar que a cor da pele daquela pessoa tornava aquele lugar impossível para mim. Em Portugal, a equação tornou-se mais complicada. Aqui percebi que podia falar a mesma língua, conhecer os códigos todos, trabalhar, ter competências e, mesmo assim, haver qualquer coisa a entrar numa sala alguns segundos antes de mim: a minha pele. E talvez seja precisamente por isso que compreendo tão bem a vontade de ocupar as salas onde durante tanto tempo não estivemos.
O problema é quando começamos a confundir ocupação com validação. Queremos estar nos grandes jornais, claro. Queremos estar nas televisões, nos festivais, nas editoras, nas empresas, nas instituições e nos espaços de decisão. Não há nada de errado nisso. O que começo a questionar é a ideia de que só conseguimos verdadeiramente quando entramos lá. Há uma diferença entre querer fazer parte do país inteiro e precisar que uma determinada parte do país nos entregue um diploma a confirmar que finalmente somos relevantes.
É aqui que olho para a experiência afro-americana com algum interesse, sem cair naquela comparação preguiçosa de que “na América os negros apoiam-se e nós não”. Também lá há divisões, competição, desigualdades e todos os defeitos humanos habituais. O que existiu, no entanto, foi uma tradição forte de criação de instituições próprias. Jornais e revistas que não ficaram à espera que os grandes meios decidissem contar aquelas histórias, rádios, editoras, produtoras, universidades, negócios, festivais, espaços culturais. A Ebony não nasceu porque um grande grupo branco decidiu que faltava diversidade numa reunião de segunda-feira. A ESSENCE tornou-se uma instituição cultural. Tyler Perry não deixou de trabalhar com Hollywood; construiu capacidade suficiente para trabalhar com Hollywood a partir de propriedade própria. É essa distinção que me interessa. Não é não trabalhar com brancos, muito menos criar uma realidade paralela onde cada grupo vive fechado no seu canto. É conseguir trabalhar com sem passar a vida inteira dependente de trabalhar para.
E aí também temos de olhar para nós, porque seria demasiado confortável chegar ao fim deste texto e concluir simplesmente que “eles” não nos dão espaço. O próprio Nuno disse-o na mensagem: entre nós, muitas vezes, a união é zero. Temos talento, artistas, produtores, jornalistas, programadores culturais, realizadores, empresários, fotógrafos, pessoas a trabalhar em música, moda, comunicação e eventos. Temos profissionais negros a fazer coisas incríveis, muitas vezes em estruturas pequenas, sem dinheiro, sem equipas e sem o colchão financeiro que permite errar duas ou três vezes até acertar. O que ainda não conseguimos fazer com suficiente consistência é transformar toda essa capacidade em instituições. Somos excelentes a sobreviver individualmente. Ainda estamos a aprender a construir poder coletivamente.
O Nuno usou uma imagem que me fez rir porque é ridícula e, por isso mesmo, bastante eficaz: às vezes parecemos centenas de formigas a andar em direções diferentes, todas convencidas de que descobriram sozinhas onde está o pastel de nata. E eu não estou fora desta crítica. A BANTUMEN também passou anos a sobreviver, a tentar pagar contas, a encontrar pessoas, a perder pessoas, a criar projetos com o dinheiro possível e, algumas vezes, com dinheiro que não era possível circunstância em que regressamos convenientemente ao início deste episódio e aos empréstimos do Nuno Varela.
A BANTUMEN nasceu há mais de uma década porque sentíamos que havia histórias que não estavam a ser contadas. Mas hoje acho que isso já não chega. Não quero que seja apenas o sítio onde pessoas negras aparecem quando os outros meios não têm espaço para elas. Não quero que seja uma sala de espera até alguém do mainstream telefonar. Quero que seja uma instituição: com memória, arquivo, jornalistas, fotógrafos, produtores, capacidade para empregar pessoas, pagar trabalho, formar gente nova, descobrir talento, produzir eventos, criar propriedade intelectual e fazer parcerias sem desaparecer dentro delas. Quero que trabalhe com o Público, com televisões, festivais, marcas e instituições, mas sem precisar de nenhuma delas para confirmar que aquilo que fazemos existe. E gostava que um dia alguém pudesse dizer “era importante conseguirmos estar na BANTUMEN” sem isso soar a uma piada que só nós percebemos.
Talvez tenha sido isso que a mensagem do Nuno me fez perceber. Quando ele perguntou “quando vamos ter Blacks a escrever sobre as nossas merdas?”, a minha resposta automática foi lembrar-lhe que já temos. E temos mesmo. Temos negros a escrever, fotografar, filmar, produzir, organizar, programar, editar, contratar, investir e inventar. A questão talvez seja outra: porque continuamos a olhar tanto para a casa dos outros que às vezes nem reconhecemos aquilo que já começámos a construir do nosso lado da rua? Não quero deixar de bater às portas que permanecem injustamente fechadas. Há portas onde devemos continuar a bater, incomodar e exigir entrada, porque também são nossas. Mas enquanto fazemos isso, talvez alguém deva continuar a pôr tijolos. Não para vivermos separados mas, precisamente, para nos conseguirmos sentar à mesma mesa sem que seja sempre o outro lado a decidir quem recebe a cadeira.
E talvez seja esse o ponto onde estou hoje. Durante muito tempo achei que vitória era entrar. Agora começo a pensar que talvez a verdadeira liberdade seja poder entrar, sair e voltar para uma casa que também é nossa.
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No fundo, a ideia deste episódio também serve para a OFF-STAGE: se queremos espaços nossos, alguém tem de ajudar a mantê-los de pé.






