Dito assim, parece incompetência. São 100 pessoas. Não estamos a tentar encontrar vida inteligente em Marte nem a pessoa que inventou a password do Wi-Fi do aeroporto. Cem pessoas. E, mesmo assim, todos os anos chegamos à mesma pergunta: quem é que falta?
A Powerlist vai para a sexta edição e eu já devia ter aprendido alguma coisa. Devia existir um método, um Excel mágico, uma fórmula qualquer que nos poupasse horas de discussão. Idealmente, uma inteligência artificial onde escrevêssemos “dá-me as 100 pessoas negras mais influentes da Lusofonia este ano” e ela devolvesse uma lista impecável, sem dúvidas, sem debates e, de preferência, sem ninguém me mandar mensagens indignadas no dia seguinte. Infelizmente, não funciona assim, porque o primeiro problema da Powerlist não é encontrar pessoas. É decidir o que estamos, afinal, à procura.
O que é uma pessoa influente? A resposta parece óbvia até começarmos a pôr nomes em cima da mesa. É o empresário que criou uma empresa e emprega centenas de pessoas? Sim. É o músico que leva a cultura de um país para palcos onde ela nunca tinha chegado? Também. É o cientista que está num dos maiores laboratórios de investigação dos Estados Unidos, a trabalhar numa coisa que provavelmente eu não conseguiria explicar sem usar três vezes a palavra “coisa”? Claro. E a senhora empregada de limpeza que decidiu enfrentar a chefe, levou o caso à Justiça e conseguiu uma vitória que pode ter impacto na vida de outras pessoas? Também pode ser. É aqui que começa a dor de cabeça.
Quando pensamos em influência, pensamos quase sempre em visibilidade. Quem aparece, quem tem seguidores, quem dá entrevistas, quem ocupa cargos importantes, quem entra numa sala e toda a gente sabe quem é. Mas há pessoas cujo impacto acontece precisamente no sítio onde as câmaras não estão. Uma pessoa pode ter dois milhões de seguidores e não alterar absolutamente nada na vida de ninguém para além da quantidade de tempo que perdemos a fazer scroll. Outra pode ser praticamente desconhecida e ter mudado as condições de trabalho de centenas de pessoas. Qual delas merece estar numa Powerlist? Não sei. E, para ser sincero, desconfio sempre um bocadinho de quem responde a essa pergunta demasiado depressa.
A Powerlist obriga-nos, todos os anos, a discutir estas coisas. Quem tem impacto? Que impacto? Durante quanto tempo? Em quem? É uma ação isolada ou existe um percurso? Estamos a falar de notoriedade, poder, influência, transformação, excelência? Às vezes tudo isso cabe na mesma pessoa. Outras vezes não cabe. E talvez uma das coisas mais difíceis deste projeto seja precisamente aceitar que não existe uma régua universal para medir vidas tão diferentes. Como é que se compara um cientista com um músico? Como é que se compara um empresário que criou 500 empregos com alguém que passou vinte anos a trabalhar para melhorar a vida dos outros? Não se compara. E, no entanto, todos os anos temos de tomar decisões.
Depois há outro problema, talvez ainda maior: como é que chegamos a essas pessoas? Porque nós não conhecemos toda a gente. Parece uma frase básica, mas é provavelmente uma das coisas mais difíceis de aceitar quando estamos a construir uma lista que pretende olhar para uma comunidade tão grande. Há milhares de pessoas a fazer coisas extraordinárias que nunca passaram pelo nosso radar. Não porque estejam escondidas, mas porque nós estávamos a olhar noutra direção.
É aí que entram os parceiros. E não estou a falar daquela versão de “parceiro” em que alguém põe um logótipo no evento, aparece numa fotografia, fazemos todos um sorriso institucional e depois cada um segue a sua vida. Para nós, um parceiro também serve para chegar a lugares onde sozinhos provavelmente não chegaríamos. Há cinco anos, por exemplo, que trabalhamos com o Balai, uma revista cabo-verdiana que nos ajuda a perceber melhor o que está a acontecer em Cabo Verde e, sobretudo, a descobrir pessoas que dificilmente chegariam até nós apenas através da nossa rede. É muito fácil olhar para um país a partir de Lisboa e acreditar que sabemos quem está a fazer o quê. Normalmente é nessa altura que começamos a cometer erros.
Este ano temos também como parceiro o Telegrama, um jornal angolano dedicado à economia e às finanças. E é exatamente esse tipo de parceria que faz sentido para a Powerlist. Se queremos identificar pessoas com impacto no universo empresarial, financeiro ou económico de Angola, é bastante mais inteligente falar com quem acompanha esse ecossistema todos os dias do que fingirmos que conhecemos tudo a partir das nossas timelines. Um parceiro, neste contexto, não nos dá simplesmente nomes. Dá-nos contexto. Diz-nos quem está a criar emprego, quem está a transformar um setor, quem está a fazer coisas relevantes sem necessariamente aparecer todos os dias nas nossas redes sociais.
No fundo, é quase como montar um puzzle em que ninguém tem a caixa com a imagem final. Cada parceiro chega com algumas peças, nós temos outras, as pessoas que já passaram pela Powerlist trazem outras, os jornalistas trazem outras, a própria comunidade traz outras. E mesmo assim sabemos que, no fim, vão faltar peças. Porque todos nós vivemos em bolhas. Mesmo quem acha que não vive numa bolha vive numa bolha; só tem uma bolha maior e sente-se ligeiramente superior por isso. Eu tenho a minha. A BANTUMEN tem a sua. Os nossos parceiros têm as deles. Lisboa tem uma bolha, Luanda tem outra, Maputo tem outra, Praia tem outra, São Paulo tem outra, e a diáspora tem dezenas. Uma Powerlist construída apenas a partir das pessoas que nós conhecemos seria, no máximo, uma lista das pessoas interessantes que conseguiram entrar nas nossas agendas telefónicas. E isso não chega.
Nos últimos cinco anos distinguimos centenas de pessoas e, mesmo assim, cada nova edição começa com aquela sensação desconfortável de estarmos outra vez no início. Surgem novos nomes, novas histórias, pessoas que já faziam trabalhos incríveis há dez ou vinte anos e que só agora chegaram até nós, outras que começaram há pouco e tiveram um impacto impossível de ignorar. E depois existem aquelas situações em que alguém menciona um nome numa reunião e toda a sala fica em silêncio durante dois segundos até alguém perguntar: “Como é que nós nunca ouvimos falar desta pessoa?” É uma boa pergunta. Normalmente sem uma boa resposta. Talvez a Powerlist seja também isso: uma sucessão organizada de coisas que ainda não sabemos.
E isto é apenas a parte de encontrar as 100 pessoas. Depois há a parte em que é preciso fazer uma gala.
A gala tem aquele defeito irritante de parecer muito simples quando está pronta. As pessoas chegam, há luz, há mesas, há comida, há música, há um palco e, aparentemente, tudo apareceu ali espontaneamente algumas horas antes. Quem organiza sabe que não. No ano passado, por exemplo, tivemos o catering oferecido por um patrocinador. Este ano o patrocinador continua connosco, o que é ótimo. O catering é que deixou de vir incluído no amor.
Portanto, uma das discussões desta edição é uma coisa muito pouco glamorosa: como é que vamos alimentar toda aquela gente? De repente estamos a pedir propostas, a fazer contas por pessoa, a perceber quantos convidados vão estar na sala, o que conseguimos pagar e quantas formas diferentes existem de uma sandes se transformar numa linha importante de orçamento. É nestes momentos que me lembro de que “produzir uma gala” é uma expressão elegante para descrever centenas de pequenos problemas que vão aparecendo até ao dia do evento.
E depois há os ingressos.
Durante cinco anos, a Powerlist funcionou essencialmente através de convites. Convidamos as pessoas distinguidas, os parceiros, a imprensa, gente ligada à cultura, à economia, ao entretenimento, pessoas da comunidade, amigos. Depois amigos de amigos. Depois conhecidos de amigos. Depois alguém telefona, alguém manda mensagem e aparece sempre aquela frase: “Eddie, só preciso de dois convites.” O “só” é provavelmente uma das palavras mais perigosas da indústria dos eventos, porque há sempre duzentas pessoas que precisam “só” de dois convites.
Ao fim de cinco anos percebemos uma coisa um bocadinho absurda: queríamos aumentar a comunidade da Powerlist, mas continuávamos a encher a sala através das mesmas redes. Já convidámos os nossos amigos, os amigos dos nossos amigos e provavelmente alguns inimigos dos nossos amigos também já lá estiveram. Mas existe uma quantidade enorme de pessoas que acompanha a Powerlist, se identifica com o projeto, conhece alguns dos homenageados, gostaria de estar naquela sala e não conhece absolutamente ninguém da organização. Nunca recebeu um convite, não tem a quem pedir e, mais importante, não devia ser necessário conhecer alguém para poder demonstrar interesse em fazer parte desta comunidade.
Foi também por isso que este ano decidimos vender ingressos. E, como acontece com quase tudo na Powerlist, até uma coisa aparentemente simples como decidir quanto custa um bilhete acaba por carregar cinco anos de problemas atrás.
Temos ingressos de 55 euros e ingressos de 125. A diferença não nasceu de uma reunião onde alguém decidiu que seria bonito ter um bilhete barato e outro com uma palavra inglesa ao lado. Nasceu de uma coisa muito mais básica: todos os anos temos o mesmo problema com os lugares.
Durante as edições anteriores, tirando homenageados e patrocinadores, não havia lugares marcados. As pessoas chegavam e sentavam-se. Ou melhor: algumas pessoas chegavam e sentavam-se. Outras, sobretudo convidados, faziam aquilo que os convidados fazem com enorme consistência em eventos chegavam atrasados.
E depois começava uma pequena coreografia. Os lugares da frente já estavam ocupados, alguém da produção precisava de encontrar uma cadeira, outra pessoa tinha de se levantar, outra perguntava porque é que fulano estava ali e, entretanto, o evento estava prestes a começar. Nós passávamos meses a organizar uma gala para, nos cinco minutos antes do início, estarmos a jogar Tetris com seres humanos.
Este ano decidimos aceitar a realidade em vez de continuar a lutar contra ela. Quem comprar o ingresso de 125 euros terá lugar reservado nas filas da frente, mais perto do palco principal, ao lado da zona onde estarão homenageados, convidados e algumas das figuras presentes na gala. Terá uma vista mais privilegiada e também algumas diferenças no serviço, nomeadamente nos cocktails e nas bebidas. Quem comprar o ingresso de 55 euros estará um pouco mais atrás e não terá lugar reservado na zona da frente.
É uma distinção assumida. Quem paga mais tem acesso aos melhores lugares. Não vale a pena embrulhar isto numa tese sobre experiências diferenciadas ou inventar palavras sofisticadas para aquilo que, no fundo, toda a gente percebe.
Também há uma pequena esperança egoísta da nossa parte: se alguém pagou 125 euros por um lugar específico na frente, talvez chegue a horas para se sentar nele.
Eu disse “talvez”.
Conheço demasiado bem o nosso público para fazer promessas.
Mas a questão dos ingressos é interessante porque também mostra como este evento cresceu. Durante anos resolvemos muitas coisas com relações pessoais. “Este é convidado.” “Aquele vem pelo parceiro.” “Arranja mais dois lugares.” “Vê se cabe mais uma pessoa.” E, quando um projeto cresce, chega uma altura em que o improviso deixa de ser charme e começa a tornar-se um problema de logística.
Há, evidentemente, uma razão muito simples para estarmos a vender ingressos: precisamos de dinheiro. Não vale a pena fingir que não. Fazer um evento custa dinheiro. Palco custa dinheiro, som custa dinheiro, luz custa dinheiro, catering como acabámos de descobrir outra vez custa bastante dinheiro. E, estranhamente, nenhum dos fornecedores até agora aceitou “impacto na comunidade” como moeda.
Mas vender ingressos não serve apenas para ajudar a financiar a gala. Serve também para chegar a pessoas a quem um convite nunca chegaria. Pessoas que estão fora das nossas redes, fora da nossa agenda, fora das bolhas dos nossos parceiros. Pessoas que talvez acompanhem isto há anos e nunca tiveram uma forma simples de dizer: “Eu quero estar aí.”
Claro que vender um bilhete não resolve tudo. Também cria uma barreira. Nem toda a gente pode ou quer pagar 55 euros, quanto mais 125. Seria desonesto dizer que, de repente, tornámos a Powerlist acessível a toda a gente só porque existe um botão para comprar um ingresso. Não tornámos. Mas abrimos uma porta que antes dependia quase exclusivamente de conhecer alguém.
E talvez seja isso que liga a venda dos ingressos ao problema com que comecei este texto. Se queremos encontrar pessoas fora das nossas bolhas, também temos de permitir que essas pessoas nos encontrem. Durante cinco anos fomos nós a tentar chegar até elas, através dos nossos contactos, dos parceiros, dos jornalistas, das pessoas que já conhecemos e das pessoas que conhecem pessoas que conhecemos. Agora há também a possibilidade de alguém olhar para aquela sala e dizer simplesmente: eu quero estar ali.
Talvez essa pessoa vá pelos homenageados. Talvez vá porque quer conhecer outras pessoas. Talvez seja empresária, artista, investigadora, trabalhe numa associação, tenha um projeto que nunca ouvimos mencionar ou esteja simplesmente interessada naquilo que estamos a construir. E talvez daqui a um ano sejamos nós a perguntar numa reunião: “Como é que nunca ouvimos falar desta pessoa?”
Vamos para a sexta edição e continuamos com o mesmo problema: precisamos de encontrar 100 pessoas. Só 100.
Mas, quanto mais fazemos a Powerlist, mais percebo que o trabalho nunca foi apenas escolher cem.
É descobrir quantas pessoas extraordinárias continuam fora do nosso campo de visão.
E já que este texto é, no fundo, sobre abrir portas, deixo duas abertas no fim. Se gostas da OFF-STAGE e queres ajudar-me a continuar a escrever estas histórias com a liberdade, o tempo e a falta de bom senso editorial que elas exigem, podes tornar-te subscritor pago. E se, além de leres sobre a Powerlist, quiseres estar dentro da sala onde tudo isto acontece, os ingressos para a sexta edição também estão à venda. Uma coisa ajuda a sustentar esta newsletter. A outra ajuda a tornar possível aquela noite. Se fizeres as duas, começo seriamente a considerar pôr o teu nome na lista de patrocinadores.









